Danças circulares na noite paulistana

IARA BIDERMAN
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA


Dança de roda, todo mundo sabe, é aquela brincadeira de criança ou manifestação folclórica presente em qualquer canto do planeta.

Quando recebe o nome de dança circular, acrescida ou não do adjetivo “sagrada”, ganha ares de coisa alternativa, restrita a iniciados e à turma que tem um pé na lama de Woodstock (e idade para ter visto isso).

Só que a ciranda já botou seu pezinho no mundo dos modernos do século 21. Em algumas baladas, gente de 20 a 30 anos está dando as mãos para dançar em rodas ou espirais com a base coreográfica e musical de danças circulares tradicionais.

A tradição, nesse caso, é a dos países balcânicos (no Leste Europeu). A balada é a festa Go East, criada no Rio de Janeiro, onde acontece todo mês, e replicada em São Paulo, onde ocorre com menos regularidade, mas com a mesma animação.

Ao som de ritmos típicos de povos eslavos e ciganos, mixados com música eletrônica como drum”n’bass e dub ou até mesmo rock, o povo da noite também resolveu cair na dança circular.

“Nas festas, sempre tem o momento roda. Até quem não sabe do que se trata entra”, diz Maria Tereza de Almeida, 25, DJ e produtora dessas baladas.

“É sempre o ápice da festa. Em balada tem muito a atitude “você com você”, cada um dançando sozinho. Na roda, a vibração é outra, é a de compartilhar”, defende Maria Tereza.

Um dos benefícios mais citados da dança circular é o aspecto inclusivo e coletivo, capaz de criar vínculos e relações de solidariedade entre os praticantes.

Não é pouco, em uma época em que a competitividade (e o estresse que ela gera) tomou conta até das atividades voltadas ao bem-estar.

FLUXO DE MOVIMENTO

Dançar em círculo leva a um ritmo diferente daqueles criados por comportamentos ansiosos, na visão do psiquiatra Paulo Toledo Machado Filho, que é coordenador do curso “Jung e Corpo”, do Instituto Sedes Sapientae, em São Paulo.

“A dança circular relaxa, alterando os neurocircuitos do estresse”, diz ele.

Por essência, a roda não cria nada competitivo, já que não há quem fique na frente ou atrás. Como o importante é manter o ritmo e a forma circular, quem erra o passo é imediatamente ajudado pelo colega, para que o fluxo do movimento seja mantido.

Pode ser, em outras palavras, o que chamam de “fluxo de energia” gerado por essa prática.

Além disso, é uma atividade artística, que não requer prática nem habilidade para ser realizada.

O que não quer dizer que seja pouco refinada em termos de movimentos ou uma prática isenta de desafios.

A fisioterapeuta e professora de danças Betty Gervitz, que dá aulas de danças étnicas em São Paulo, afirma que o trabalho neuromotor da dança circular é bastante requintado.

A roda desenvolve a bilateralidade (controle motor dos lados esquerdo e direito do corpo) e exige que o cérebro processe a informação sobre o movimento de forma diferente da que está habituado.

“Normalmente, quando aprendemos um passo ou uma coreografia, imitamos quem está à nossa frente, como um espelho. Em uma roda, você tem que fazer o movimento contrário do feito por quem está na sua frente”, explica Gervitz.

Ao mesmo tempo, é preciso regular o passo, respeitar o espaço do outro e seguir ritmos pouco óbvios -as músicas não são exóticas apenas por virem de culturas diferentes, mas também porque têm padrões rítmicos com contagens de tempo diferentes das usuais.

A mágica é que tudo isso pode ser complexo, mas basta entrar na roda para tudo acontecer naturalmente. “A roda é um facilitador, ela te leva; como os passos se repetem, o corpo vai assimilando essas novas informações gradualmente”, diz Gervitz.

O fator prazer também ajuda. A alegria da música, a animação do grupo e o fato de não ser preciso sofrer para atingir um determinado objetivo colaboram para aumentar a produção de neuro-hormônios ligados à sensação de bem-estar, como por exemplo as endorfinas.

E claro, também há um considerável trabalho aeróbico que, além de estimular as endorfinas, aumenta a capacidade cardiorrespiratória, queima calorias e ajuda no controle da pressão arterial, entre outras coisas.

MODELO DE ORDEM

Aos efeitos físicos, somam-se os benefícios extracorporais das danças circulares. “O círculo é o modelo organizador para a psique e realizá-lo fisicamente ajuda a pessoa a se organizar internamente”, afirma o psiquiatra Paulo Machado Filho.

A psicóloga Glaucia Rodrigues, coordenadora do Centro de Estudos Universais, que promove cursos de danças circulares, diz que a roda ou qualquer movimento circular, como girar sobre o eixo do próprio corpo, ajuda a pessoa a se autocentrar e a se equilibrar.

“Na roda, a pessoa precisa estar presente, inteira naquela situação. Ela precisa estar o tempo todo conectada com o espaço e com o seu corpo”, diz a bailarina Rosane Almeida, que ensina danças brasileiras no Instituto Brincante, em São Paulo.

Essa conexão é entendida por muitos como uma forma de meditação ativa. Para várias culturas, é uma oração em movimento -daí a concepção de dança sagrada.

Danças circulares vinculadas a rituais religiosos estão presentes em diversas tradições. Aparecem no candomblé, em cerimônias indígenas ou no giro dos sufis, que são os místicos do islã.

Nessas situações, os praticantes costumam passar por algum tipo de iniciação, que os integra ao sistema de crenças em questão e os prepara para lidar com pequenas alterações de consciência, segundo Paulo Machado Filho. “Na relação com o ritmo e com o movimento, o praticante tem uma percepção diferente da realidade. Em termos psicológicos, deixa de tomar o próprio “eu” como referência, consegue ver as coisas em uma esfera maior”, diz o psiquiatra.

O bailarino egípcio Mohamed El Sayed, que no mês passado deu um workshop de giro sufi em São Paulo, acredita que a dança sagrada “supera a materialidade”, usando o corpo como uma conexão entre o céu e a terra.

Simbolicamente, as danças circulares reproduzem o movimento dos astros celestes, como o de rotação (sobre o próprio eixo) e de translação (ao redor de um centro). Algumas correntes restringem essa prática aos iniciados. “As alterações de consciência causadas pela dança podem levar a estados descritos como êxtase, e nem todo mundo sabe lidar com esses efeitos. Por isso a exigência de uma preparação”, pondera Machado Filho.

Para Sayed, porém, a essência da dança e a funcionalidade dos movimentos circulares permitem que o giro seja feito de forma mais solta e por qualquer pessoa. Basta estar disposto a se deixar levar, ser levado pela música e pelo grupo, se concentrar no aqui e agora. E girar.

Fonte: Folha de São Paulo

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