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Saberes médicos e sentidos da vida – Entrevista ao Jornal A Voz da Serra

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Maurício Siaines

Marcelo Guerra é um médico homeopata que atende no centro de Nova Friburgo, em Lumiar e em Cantagalo. Escreve para o site Personare e organiza, também, “vivências de terapia biográfica em grupo”, em Nova Friburgo e em São Paulo. Nestas últimas, procura levar o grupo a compartilhar fatos das vidas dos componentes do grupo, buscando “um fio de sentido” que conecte esses fatos, procurando levar os participantes à consciência desse sentido para poder ajustar suas vidas a seus sentidos
Marcelo deu entrevista para A VOZ DA SERRA, no sábado, 6 de outubro, em Lumiar, falando de suas experiências e de sua visão de mundo e da medicina.
A VOZ DA SERRA – Fale um pouco de sua trajetória de vida.
Marcelo Guerra – Nasci em São Gonçalo (RJ) e vivi lá até os 22 anos. Estudei medicina na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), na Ilha do Fundão. Antes, estudei em São Gonçalo na Escola [Municipal Presidente] Castelo Branco e depois em Niterói, no [Instituto] Gay Lussac. Uma história curiosa dessa escola em que estudei: quando era pequeno, passava ao local onde depois foi construída essa escola e não tinha obra, não tinha nada, era uma chácara. E eu dizia para minha avó que ia estudar ali. Explicavam-me que não estudaria ali, porque era uma casa, onde moravam pessoas. Depois, demoliram e fizeram essa escola. E fui estudar lá. Quando fui estudar no Fundão, era uma hora e meia para lá e uma hora e meia para cá … Isto quando não tinha engarrafamento, quando não quebrava o ônibus da CTC (Companhia de Transportes Coletivos do Estado do Rio de Janeiro). Depois, vim para o interior [do estado].
AVS – Por que esta sua escolha de mudar-se para o interior?
Marcelo Guerra – Tinha um tio-avô que havia comprado um sítio em Monnerat [distrito de Duas Barras]. Esse tio-avô e minha avó são de Euclidelândia, em Cantagalo. Foram criados em Macuco e mudaram-se para Niterói—ainda adolescentes. E ficaram com aquela visão idílica dessa Região Centro-Norte. E aí, esse tio comprou o sítio e, quando eu tinha 12 anos, me convidava para passar fins de semana e férias. E eu adorei Monnerat … Vinha a Friburgo, que achava linda—acho ainda. Depois, meu tio loteou o sítio para os parentes com prestações a perder de vista. E minha mãe comprou um lote e fez uma casa. E vínhamos nos fins de semana e nas férias. Assim, já tinha contato com as pessoas de Monnerat e gostava muito, meu sonho era morar em Monnerat, trabalhar lá. Quando pude fui para lá. Minha então esposa, que trabalhava no Banco do Brasil, transferiu-se para Cordeiro, montei um consultório em Monnerat, arranjei emprego no hospital de Bom Jardim, depois na Prefeitura de Duas Barras.
AVS – O consultório já era de medicina homeopática?
Marcelo Guerra – Não, era de pediatria. Depois fui trabalhar em Cantagalo, que foi o lugar em que tive mais clientes. Nessa época, fui fazer o curso de homeopatia, no Rio, no Instituto Hahnemanniano Brasileiro (IHB). E continuei a trabalhar em Cantagalo e nos outros hospitais, em Valão do Barro, em São Sebastião do Alto, em Macuco, em Cambuci.
AVS – Sua vida profissional foi, então, sempre no interior?
Marcelo Guerra – Sempre no interior. Hoje, quando converso com colegas, ou com minha filha que estuda medicina, vejo como é diferente a forma como a medicina é exercida no interior e na cidade grande. Agora, voltei a atender em Cantagalo. Quando chego lá e encontro as pessoas, é como se fosse um reencontro de amigos. Isso não existe mais na cidade grande.
AVS – Falando em cultura do interior, há um grande diferença entre o interior de São Paulo e do estado do Rio. Em São Paulo, o interior é muito vivo, rico, e o estado do Rio parece ter sido meio esquecido, mas agora parece estar se revitalizando …
Marcelo Guerra – Não sei … Cantagalo, por exemplo, é muito arrumadinho, muito bonito, mas sinto que os jovens que se formam não têm como trabalhar, precisam sair. Aqui em Friburgo, também. Acho que isso reflete a decadência econômica do estado todo.
AVS – Você era pediatra e de onde veio essa inclinação pela homeopatia?
Marcelo Guerra – Minha relação inicial com a homeopatia era de repúdio. Estudei no Fundão e lá a homeopatia é vista como não sendo medicina. Mas, um dia, tive contato com um professor que estava levando um filho ao médico homeopata. E ele me contou que o filho tinha asma, que nunca melhorava, tinha crises uma atrás da outra, e melhorou com a homeopatia, não teve mais crises. E ele me disse: “Não sei como é, mas funciona”. E então fui assistir a uma palestra [sobre homeopatia] e gostei. Aí me inscrevi no curso—ainda meio desconfiado. Isso foi em 1990. Fui ver qual era e acabei fazendo o curso todo e descobrindo ali o meu graal.
AVS – O santo graal?
Marcelo Guerra – Tinha acabado de ler a história do Parsifal e ele, quando entra no castelo onde está o graal, vê o graal, mas não sabe o que é. Depois ele fica sabendo e tenta de novo chegar lá.
AVS – Mas por que foi o seu graal?
Marcelo Guerra – Porque estudei homeopatia mas, apesar de ter logo sucesso com os clientes, os tratamentos dando certo, ficava sempre assim como se não fosse bem aquilo. Depois fui fazer acupuntura, depois terapia biográfica …
AVS – E a psicanálise?
Marcelo Guerra – A psicanálise aconteceu em Niterói. Ainda durante a faculdade fiz dois anos de [formação em] psicanálise lacaniana, na Escola de Psicanálise de Niterói. Mas era como se eu estivesse sempre procurando uma outra coisa que complementasse, achando que faltava alguma coisa. Mas, no fim das contas, vi que meu graal era a homeopatia. Ali é que estava o que eu precisava, o que eu buscava, a visão de pessoa, a visão de como lidar com a doença, de como lidar com o paciente, estava tudo ali. As outras [tendências de pensamento] falam coisas muito semelhantes, apesar de teoricamente serem muito diferentes.
AVS – Há quem entenda o sucesso da homeopatia em parte como efeito psicossomático, isto é, como algo que tem efeito sobre o corpo a partir de uma situação psíquica, relacionado com algo como uma crença, ou uma crença compartilhada por um grupo social que, assim, interfere na realidade corporal. Como você vê isso?
Marcelo Guerra – Pois é, mas há situações de pacientes que não acreditam na homeopatia. E há também o paciente que diz o seguinte: “Ah! Me dou muito bem com a homeopatia porque acredito”. Eu discordo, porque não é isso, não é questão de acreditar. É a questão, por exemplo, da homeopatia veterinária: o cachorro não acredita em nada, o passarinho não acredita em nada. Uma planta: agora usa-se homeopatia na agricultura. Como seria possível uma planta melhorar de uma doença com a homeopatia? Não é por fé. Não é preciso acreditar, é só tomar o remédio.
Tive um paciente, uma vez, um senhor, que chegou irado—isto foi lá em Cambuci—, ele chegou brigando, falou um monte de palavrões e disse: “Só vim porque minha filha marcou, me obrigou a vir!”. Como ele disse tudo isso antes da consulta, pensei que nem adiantaria levá-la adiante, imaginando que ele não fosse tomar o remédio. Perguntei então a ele: “Antes de perdermos tempo, se eu passar algum remédio o senhor vai tomar?”. Respondeu-me que tomaria porque a filha é que pagaria. Aí, conversei com ele, perguntei tudo, anotei e prescrevi. Funcionou e o cara ficou meu fã. Depois, me mandou um monte de pacientes. Se dependesse de acreditar, com aquele ali nada daria certo, não tinha a menor chance.
Agora, como funciona? Existem algumas teorias mas não me aventuro [a discuti-las]. Honestamente, funcionando, não me interessa saber como funciona. Não que não seja importante saber como funciona, é importante, mas este não é o meu trabalho, mas dos cientistas. Há um estudioso, Jacques Benveniste, Prêmio Nobel de medicina, que descobriu o vírus da aids. Ele é um médico francês que hoje pesquisa como funciona a homeopatia, como funcionam esses remédios tão diluídos. Ele trabalha com isso, eu, não. Trabalho com o paciente.
AVS – Aqui você traz a seguinte questão: a medicina, embora se baseie em conhecimentos científicos, também é uma arte, também depende da intuição e de percepções não necessariamente racionalizadas. O que você pensa disto?
Marcelo Guerra – Exatamente, o [Christian Friedrich Samuel] Hahnemann [1755-1843], quando escreveu o livro que é uma espécie de Bíblia da homeopatia [em 1810], deu-lhe o nome de Organon da Arte de Curar, não da ciência de curar. Se você vai fazer uma pintura você tem que aprender a técnica, não é simplesmente a intuição ou a sensibilidade. Fora as pessoas excepcionais, que têm um dom especial, é preciso ter uma técnica, aprender esta técnica, e colocar sua sensibilidade junto. Medicina é uma arte. Tem-se hoje a ideia de medicina baseada em evidências, que, na realidade tem sido medicina baseada em exames e muitas vezes o médico nem olha a cara do paciente, só sabe do resultado do exame. Se no exame apresentam-se tantos leucócitos ou tantos não sei o quê, não interessa nem se o paciente está bem ou não. Às vezes está bem [apesar de o exame sugerir o contrário]. Às vezes é uma situação que até já acabou. Hoje em dia há uma enxurrada de exames e as pessoas nem conversam.
AVS – Isto faz lembrar o Nelson Rodrigues quando falava em “idiotas da objetividade”: esse saber muito objetivo ajuda, é claro, mas o estado do paciente o médico pode perceber com aquelas práticas antigas, com a observação imediata da pessoa …
MG – … e aí, o exame complementar voltaria a ser realmente complementar. Hoje, na medicina convencional, acho que é o principal.
AVS – Mas isto está mudando, não é?
Marcelo Guerra – Está porque as pessoas estão querendo, estão precisando ser atendidas e não só examinadas, não só fazer exames complementares. As pessoas estão querendo ter um atendimento de verdade.
AVS – São quase que duas profissões diferentes, embora complementares: a medicina praticada com a percepção clínica do médico, com o chamado “olho clínico”, e a medicina, digamos, teórica.
Marcelo Guerra – E o teórico, o pesquisador, traz o recurso da técnica que permite fazer com segurança o trabalho junto com o paciente.
AVS – Outra questão interessante é a das regularidades necessárias à vida humana. Precisamos de uma regularidade de sono e vigília—inclusive, diferente de outros animais—, assim como precisamos comer ou beber periodicamente. Não podemos nos livrar dessas regularidades, não é?
Marcelo Guerra – A esse respeito, pode-se pensar na rotina. A gente reclama tanto da rotina, mas ela é necessária. Ela vem dos hábitos e, estes, trazemos muito de nossa infância, do modo como fomos criados. Por exemplo: você está fazendo uma longa viagem de carro e para às 11h. Aí, come um sanduíche e continua a viagem. Mas você tem o hábito, desde criança, de almoçar ao meio-dia. Você comeu e não está com fome, mas, ao meio-dia, você sente que está faltando alguma coisa. A gente vive reclamando dos hábitos e das rotinas, mas mudá-los é muito difícil. E viver totalmente sem rotina é praticamente impossível. Seria muito cansativo e insuportável e não ter uma rotina acaba virando uma rotina. As regularidades são necessárias, fazem parte da vida da gente. Mas não se pode ficar escravo dos hábitos. Nesse exemplo da viagem, a pessoa não pode deixar para comer só ao meio-dia porque, às vezes, não haverá nada na estrada para se comer a essa hora.
AVS – É difícil distinguir o que é propriamente uma necessidade do corpo do que é criado pela mente, não é?
Marcelo Guerra – Há quem procure separar o que é do corpo e o que é da mente, mas, na realidade, tudo é uma coisa só. Tanto a homeopatia, quanto a medicina chinesa pensam assim.
AVS – E quanto à terapia biográfica?
Marcelo Guerra – Ela vem muito em cima da pessoa tomar [o controle da própria vida]. Existe o livro da doutora Gudrun Burkhard, cujo título é “Tomar a vida nas próprias mãos”. Apesar do nome alemão, ela é brasileira [de São Paulo] e atualmente mora em Florianópolis. Muitas vezes a pessoa atribui seus problemas a outro, ou às circunstâncias, à família. Também acontece da pessoa ter necessidades que não foram satisfeitas, mas ela não vai voltar lá atrás para refazer as coisas. Pode-se buscar entender qual o sentido disso e o que se pode fazer daqui pra frente.
AVS – Qual a diferença entre essa perspectiva e a psicanalítica?
Marcelo Guerra – É que a psicanálise trabalha muito com o conceito do inconsciente. Na terapia biográfica há a influência da antroposofia, criada por Rudolf Steiner [1861-1925], e tem também a influência do Viktor Frankl [1905-1997], que foi psicanalista. Ele era judeu e austríaco, como Freud. Ele não acreditou muito que viesse a acontecer a perseguição aos judeus. E aí, foi preso e passou seis anos no campo de concentração de Auschwitz. Ele criou uma nova linha de terapia, a logoterapia, baseada no sentido. Ele pensa o seguinte: os prisioneiros não eram sempre mandados imediatamente para a câmara de gás, eram postos para trabalhar. E ele se pergunta por que algumas pessoas morriam nos campos de concentração de doenças, de fome, de frio? Por que uns morriam e outros, não? Ele se perguntava o seguinte: “O que faz a gente sobreviver?”. A pessoa perdeu tudo, a família, o nome, profissão, casa, todos os seus bens. Por que alguns sobreviveram mesmo assim? A partir dessa questão ele escreveu um livro clássico, “O homem em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração”. Ele diz que ter um sentido para a própria vida faz com que a pessoa permaneça viva, dá uma força para sobreviver.
AVS – Mas existem circunstâncias, como essa do campo de concentração, em que a vida se altera tanto, que a pessoa precisa encontrar outro sentido…
Marcelo Guerra – Será? O importante é a pessoa olhar sua vida e perceber um sentido, que não tem que ser imutável. Não é uma ideia de um destino pesado sobre a pessoa, pois, se fosse assim, não seria tomar a vida em suas mãos. Quando se tem a percepção de um sentido em sua história de vida, consegue-se diminuir a insatisfação.

O que você faz com seus talentos?

talentos

Na metodologia do Trabalho Biográfico dividimos a vida em períodos de 7 anos, que chamamos Setênios. Esta divisão tem um propósito didático, mas contém em si uma sabedoria, já conhecida dos antigos filósofos gregos, que primeiro propuseram esta divisão. Cada passagem de setênio é marcada por acontecimentos que levam a vida para uma direção diferente. Às vezes esses acontecimentos são externos, fatos verdadeiramente, mas muitas vezes são internos, mudanças de nossa percepção em relação ao mundo. Sejam internos ou externos, esses acontecimentos provocam crises na nossa existência.
Por volta dos 28 anos, às vezes um pouco antes ou um pouco depois, vivemos a Crise dos Talentos. Até os 21 anos fomos educados, e no início da vida adulta experimentamos o que aprendemos em nossa vida pessoal, amorosa e profissional, muitas vezes de forma impulsiva, guiados mais pelos sentimentos e sensações do que pela razão. Chegando aos 28 anos, estamos desenvolvendo mais o pensamento racional, e cada decisão passa a ser muito mais pesada e medida do que apenas sentida. Muitas pessoas dizem que “agora a juventude acabou”, e buscam situações mais estáveis na vida. Por exemplo, se você mudou muito de emprego, sempre seguindo as propostas e possibilidades de aprender algo novo, agora já buscará estabelecer um momento mais estável na sua carreira, seja através de um emprego ou mesmo por conta própria. Não estou falando de arrependimento em relação às mudanças do início da vida adulta, já que essa multiplicidade de experiências fez com que você desenvolvesse múltiplos talentos.
E a Crise dos Talentos leva você a pensar: “saí pelo mundo, pela vida, vivi muitas situações, aprendi muita coisa, desenvolvi muitos talentos mas… e agora? O que eu faço com meus talentos daqui para a frente? Sobre quais talentos eu quero trabalhar para que se desenvolvam mais e possam tornar-se uma faculdade em minha vida? Quais talentos preciso deixar de lado, totalmente ou pelo menos parcialmente, por não me servirem mais ou não me interessarem mais?”
Muitas vezes a Crise dos Talentos aparece como um questionamento de suas próprias capacidades. Em minha vida, apareceu entre os 28 e os 29 anos. Eu trabalhava como médico homeopata e pediatra em uma cidade muito pequena, perto de Nova Friburgo, e era o único homeopata da cidade. Tinha muitos clientes, ganhava bem, tinha um nome respeitado, mesmo sendo tão novo e estar formado há apenas 5 anos. Já não precisava mais dar plantões, passeava nos finais de semana com a família, viajava frequentemente. Tudo de bom! Aí começou o comichão… Eu me questionava se era realmente um bom médico homeopata ou se fazia sucesso por ser o único na cidade, tipo ‘em terra de cego quem tem um olho é rei’. Resolvi mudar para Friburgo e começar a trabalhar lá, já que é uma cidade muito maior, e tem uma tradição em termos de homeopatia, sempre com muitos médicos homeopatas (proporcionalmente à população, tem mais homeopatas que a maioria das capitais). Logicamente mantive alguns dias no antigo consultório, não foi um salto sem rede de proteção, mas aos poucos fui aumentando meus horários no consultório de Friburgo, e tudo deu certo. Eu tinha talento pra coisa! Daí começou uma nova fase em minha vida, com novas possibilidades (o contato com a Antroposofia começou aí, aos 28 anos, através de uma amiga de Friburgo).
Esta Crise dos Talentos muitas vezes é deflagrada por alguém, um amigo ou alguém que passa batido pela nossa vida, que fala alguma coisa e cria esse comichão. Pode ser também um livro, um filme, mas sempre levando a um profundo questionamento do que fazer com os talentos que conquistamos até então.
Observe na sua história, se você já passou dessa idade, o que pode ter sido essa Crise dos Talentos. E, se você ainda não chegou aos 28 anos, esteja de olhos e ouvidos abertos para os questionamentos que vão surgir nesta fase. Eles vão lhe trazer uma certa angústia, afinal a palavra ‘crise’ não é retórica, mas você vai entrar num novo rumo em sua vida, num crescimento pessoal muito recompensador.

Marcelo Guerra

Artigo originalmente escrito para a Revista Personare.

A infância influencia a saúde do adulto

criancatriste12Como adultos, passamos diariamente por situações de estresse, maiores ou menores. Elas podem aparecer no trabalho, na rua, ou em casa. Alguns reagem ao estresse com alterações no humor, tornando-se mal humorados e tristes; outros com alterações na sua saúde psíquica, desenvolvendo doenças como depressão, transtorno de ansiedade, síndrome do pânico, conflitos em relacionamentos, insônia; outros ainda adoecem fisicamente, com doenças que habitualmente são classificadas como psicossomáticas, como a doença do intestino irritável ou certos casos de asma. Ainda há um grupo de pessoas que desenvolve doenças que até pouco tempo acreditava-se que fossem puramente orgânicas, como diabetes, hipertensão, arteriosclerose. Contudo, há um grupo de pessoas que, sob o peso das mesmas situações de estresse, não adoece nem física nem emocionalmente. Essas diferenças atraíram a atenção do Neurobiólogo canadense Michel Meaney, da Universidade McGill, em Montreal. Suas pesquisas indicam que as diferentes reações ao estresse são condicionadas na infância. Conflitos familiares constantes, abusos físicos ou sexuais em crianças, uma educação muito severa ou negligência nos cuidados ou na educação que a criança precisa, são fatores que predispõem o futuro adulto a adoecer com mais facilidade, tanto mentalmente como fisicamente. Há um fator genético também envolvido, mas as experiências da infância são determinantes. A criança passa não só por um crescimento em tamanho, mas pelo amadurecimento de seus órgãos internos. O sistema nervoso central e o sistema endócrino, com suas glândulas e hormônios, estão em formação e são muito afetados pelas experiências dolorosas da infância. Essas experiências marcam a forma de reação ao estresse, como uma informação que fica impressa no corpo, e se repete sempre que a pessoa se encontra diante de situações que inconscientemente têm relação com os sofrimentos da criança. Daí que muitas reações ao estresse parecem infantis, porque é a criança machucada que está atuando! Quando o adulto, por um trabalho terapêutico, reconhece as feridas físicas e emocionais que a sua criança interior carrega, ele dá o primeiro passo no sentido de acolher esta criança que ele foi e libertar sua vida de adulto daquelas reações infantis, permitindo-se viver como uma pessoa livre e responsável. Porque é uma prisão reagir sempre da mesma maneira ao que acontece em nossas vidas e, quando podemos deixar de agir conforme o padrão e mesclar o pensar e o sentir antes de agir, esta é a maior liberdade que podemos almejar!

Hahnemann vai para Paris

Não existem doenças, existem doentes.”

Em 1832, aos 77 anos, diante do enorme sucesso que a Homeopatia vem angariando, seus opositores contra-atacam. Um certo Dr. Kaiser pede a interdição das 4 obras de Hahnemann sobre a cólera, alegando que determinadas passagens são ofensivas aos médicos. O duque Henrique, que sucedera o duque Ferdinando, não é simpático à Homeopatia como seu antecessor e repreende Hahnemann por manipular medicamentos, privilégio que lhe fôra concedido oficialmente, e proíbe a venda dos livretos sobre a cólera no ducado.

Somou-se a este problema profissional uma nova dor no âmbito pessoal. Sua quinta filha, Frederica, é assassinada em Leipzig, onde vivia sozinha após enviuvar de seu segundo marido. Sua casa foi assaltada e ela foi morta no jardim. Este fato o abate muito, mas não se permite parar com suas atividades.

Em julho deste ano recebe o Dr. Gottfried Lehmann, um médico de 43 anos, com sua esposa e suas duas filhas. Ele próprio exercia a Homeopatia, mas vem consultar o mestre a respeito da saúde de sua esposa. Há uma simpatia mútua entre os dois médicos e Hahnemann o convida para ser seu assistente, assoberbado que estava com o grande afluxo de pacientes vindo de toda a Europa. A escolha foi muito feliz, mas mesmo assim ambos não davam conta do afluxo crescente de pacientes.

Hahnemann divide seu tempo entre o consultório e a revisão que faz do Organon para lançar a sua 5ª edição, a última publicada em vida. Nesta edição introduz a noção de “Força Vital” ou “Dynamis”, cujo desequilíbrio levaria à doença. O papel do médico é restabelecer o equilíbrio da força vital, através de um remédio que atue dinamicamente sobre ela.

Neste mesmo ano, o 1º hospital homeopático abre suas portas em Leipzig, apesar da sempre aguardada oposição do Professor Clarus. Havia dois grandes grupos trabalhando neste hospital, o de ‘homeopatas puros’ e os ‘semi-homeopatas’, estes últimos usavam a Homeopatia associada à alopatia. Hahnemann ficou muito preocupado com a possibilidade de usarem tratamentos alopáticos no hospital homeopático, e irritou-se muito ao descobrir que foram feitas sangrias lá dentro em uma filha de um fervoroso adepto da Homeopatia. Ele fez publicar um artigo arrasador contra os ‘semi-homeopatas’ do hospital no mais importante jornal de Leipzig, acusando-os de desonrar a Homeopatia. A direção do hospital foi assumida então pelo Dr. Schweikert, um ‘homeopata puro’.

Em 1834 Hahnemann, então com 79 anos, decide visitar o hospital, e o faz em companhia do seu assistente, o Dr. Lehmann, e suas filhas. Ele gostou tanto do que viu, que decidiu assumir a direção do hospital, o que levou ao afastamento da associação dos médicos de Leipzig, que o geria. Hahnemann o dirigia a partir de Coethen, de forma muito ditatorial, mantendo sob suas ordens o Dr. Schweikert, que saiu para a entrada de outro homeopata, o Dr. Rummel, que não permaneceu muito tempo nesta função, entregando a responsabilidade a um jovem médico chamado Dr. Ficker, de quem pouco se conhecia. As dívidas acumularam-se, e o Dr. Ficker revelou-se um verdadeiro impostor que mais tarde admitiu que seu único propósito era demonstrar a inutilidade da Homeopatia. Tratava os pacientes pela alopatia e, aos doentes que exigiam remédios homeopáticos, dava açúcar puro. Durante sua gestão, escreveu numerosos artigos em revistas médicas, denegrindo a imagem da Homeopatia. Vários outros prepostos passaram pela direção do hospital, que fechou suas portas em 1842, após dez anos de existência tumultuada. Note-se que Hahnemann foi bastante indiferente aos rumos que o hospital seguia, estranho para quem sempre envolvia-se de forma muito apaixonada em tudo.

Em outubro de 1834, ainda com 79 anos, Hahnemann recebe para consulta uma mulher francesa de 30 anos, chamada Mélanie d’Hervilly, que estava deprimida pela morte de vários amigos e não achava cura em Paris. Decidiu consultar-se com o velho mestre após ler o Organon, recentemente traduzido para o francês. Realizou uma longa, desconfortável e perigosa viagem até Coethen, vestida de homem, talvez por razões de segurança. E é assim, vestida de homem, que chega a Coethen, escandalizando os seus habitantes.

Ela ficou hospedada na casa de um morador da cidade e consultava-se com Hahnemann todos os dias. As consultas são em francês, e tornam-se conversas sobre a medicina, que Mélanie sempre admirara. Após três meses, a francesa está curada e Hahnemann, apaixonado.

Suas duas filhas que com ele residem e seus amigos não nutrem o menor entusiasmo pelo que está acontecendo, mas não conseguem impedir que Hahnemann a peça em casamento, que é realizado em 18 de janeiro de 1835, em Coethen, na própria casa de Hahnemann, na presença das duas insatisfeitas filhas e dos amigos que se opunham a esta união. Ficaram morando nesta casa, e Carlota e Luísa mudaram-se para a casa ao lado, comprada por Hahnemann.

Luísa, a filha mais nova, escreveu-lhe uma carta numa tentativa inútil de demovê-lo da idéia do casamento incomum:

Pai muito amado, ouça-me.

Quando penso na minha abençoada mãe, nas suas qualidades, nas suas virtudes, parte-me o coração.

Viveu ao seu lado durante quase 48 anos, com uma fidelidade constante, educando consigo dez filhos, nas piores condições materiais, vagueando consigo pelo mundo, vítima das abomináveis perseguições dos inimigos da homeopatia.

Foi sempre alegre, voluntariamente sacrificando por si até a última moeda, mas estando sempre bem arrumada, elegante, dona de casa atenciosa, a fim de preservar sua tranqüilidade e a de seus filhos.

Ajudou-o de todas as maneiras e com todas as suas forças para permitir-lhe suportar penas e sofrimentos. Tratou-o quando esteve doente e assumiu os mais terríveis ataques com dignidade. Ensinou aos filhos o respeito que lhe é devido. Honra lhe seja feita! Com a nossa mais viva afeição por ela.”

Na véspera do casamento, Hahnemann foi a um cartório e fez um testamento transferindo seus bens e patrimônio para seus filhos e netos, resultando uma quantia muito boa para cada um deles.

Chegaram felicitações pelo casamento de vários países europeus. Alguns jornais da Saxônia publicaram notas irônicas sobre o fato, como esta: “O célebre pai da Homeopatia, Dr. Hahnemann, voltou a casar em 18 de janeiro, já entrado no seu octogésimo ano, para mostrar ao mundo o vigor que seu sistema lhe dá. O ‘jovem’ ainda está robusto e desafia portanto os médicos alopatas. Tente fazer o mesmo, se puder.”

Mélanie convenceu-o de que para assegurar a difusão mundial da Homeopatia, era preciso ir para Paris, “a cidade-luz”. Assim, seis meses após casarem-se, já com 80 anos, Hahnemann e sua nova esposa mudam-se para Paris. Carlota e Luísa ficaram sozinhas na velha casa de Coethen, tristes, pobres e magoadas, sentindo-se abandonadas pelo pai. Um mês antes da partida, Hahnemann volta ao cartório e redige um novo testamento, em que Mélanie é a herdeira universal, e seus filhos dividiriam seus móveis, arquivos médicos, livros e objetos. Carlota morrerá em 1862, e Luísa ficará ainda mais solitária, e receberá a visita de Constantino Hering em 1872, a quem se queixará com amargura desta situação que teve que viver.

Hahnemann e Mélanie instalam-se num pequeno apartamento no centro de Paris, onde vai morar também o tutor de Mélanie, e que ela já reservara antes de ir a Coethen, já prevendo o sucesso de sua empreitada. Algumas semanas mais tarde mudam-se para uma casa espaçosa próxima aos jardins do Luxemburgo, onde Hahnemann vai passear freqüentemente. A Homeopatia chegara à França há 5 anos, e já estava presente em várias cidades. A Sociedade Homeopática de Paris tinha como grande incentivador o Dr. Curie, avô de Pierre Curie, que viria a ser o descobridor do rádio juntamente com sua brilhante esposa Marie Curie. Dois jornais médicos dedicados à Homeopatia já circulam na França. Em agosto, Hahnemann obtém autorização para clinicar em Paris emitida pelo ministro da educação e saúde, o professor Guizot, e pelo rei Luis Felipe. Esta autorização havia sido solicitada em fevereiro, enquanto ainda moravam em Coethen, por Mélanie, sem que Hahnemann ainda pensasse em mudar-se para Paris.

Obviamente, os opositores da Homeopatia manifestaram-se, a partir da academia de medicina, pedindo o banimento da Homeopatia da França. O ministro Guizot respondeu num discurso na tribuna da câmara:

Hahnemann é um sábio de grande mérito. A ciência deve estar a serviço de todos. Se a Homeopatia é uma quimera ou um sistema sem valor próprio, cairá por si só. Se, pelo contrário, é um progresso, espalhar-se-á apesar de todas as nossas medidas de preservação, e é o que a Academia deve desejar, antes de qualquer outra pessoa, jé que é sua missão fazer avançar a ciência e encorajar as descobertas.”

Cabe ressaltar o fato de que Guizot também era maçom, e isto provavelmente pesou nas decisões favoráveis a Hahnemann. Mélanie também era muito bem relacionada na sociedade parisiense, o que abria muitas portas. E os médicos alemães estavam na moda na Paris de então.

Entre 1834 e 1837, começando em Coethen e depois prosseguindo em Paris, Hahnemann tratou do marquês d’Anglésea um dos heróis das guerras napoleônicas. Ele perdera uma perna na batalha de Waterloo e depois desenvolveu uma nevralgia facial que nenhum médico conseguia solucionar. O marquês ficou totalmente curado pelo tratamento de Hahnemann e esta cura foi considerada quase um milagre em toda a Europa, trazendo uma reputação muito grande para a Homeopatia e seu fundador. Outra cura espetacular foi a de um garoto escocês de 12 anos, que após dois anos de tratamentos alopáticos diversos, foi considerado incurável. Uma rica senhora o levou a Hahnemann, que curou-o após nove meses de tratamento homeopático.

Hahnemann foi convidado para fazer parte da Sociedade Galicana (destinada a defender a autonomia dos bispos franceses em relação ao Papa), e para esta ocasião redigiu um discurso que terminava com a frase: “A Homeopatia estará sempre em primeiro plano no meu combate…” Foi nomeado presidente honorário vitalício e recebeu uma medalha com sua efígie e dois bustos esculpidos a mando dos homeopatas parisienses, um em bronze e o outro em pedra.


Sua vida em Paris consiste de consultas, conversas com os colegas, homenagens e discussões científicas. Mudam-se para uma casa ainda maior, num bairro da moda em Paris. Mélanie o ajuda nas consultas, e ela mesma também dá consultas, mesmo ilegalmente. Os pacientes fazem fila à porta de seu consultório arrumado de forma austera e modesta, diferentemente do restante de seu palacete. Ele atende nobres, burgueses, artistas, políticos, jornalistas. Hahnemann desfruta de uma celebridade nunca antes imaginada. Os honorários eram fixados de acordo com a situação financeira de cada um: os pobres não pagavam nada e os ricos pagavam bem.

Hahnemann e Mélanie atendiam até as seis horas, e depois jantavam juntos. Às segundas-feiras à noite recebia os médicos homeopatas para discutirem Homeopatia, às quintas ia à ópera ou ao teatro com sua jovem esposa. Uma vez por mês recebiam a sociedade parisiense em sua casa.

Em 1837, com 82 anos, sofre um novo baque, ao receber a notícia de que sua nona filha, Eleonora, havia sido assassinada em Coethen. Havia a dúvida se fôra assassinato ou suicídio, pois um homem que estivera com ela horas antes do suicídio era um tabelião que foi chamado para redigir um testamento.

Em 1839, aos 84 anos, Hahnemann é homenageado pelo sexagésimo aniversário de sua tese de formatura em medicina. Sua filha Amália vai a Paris prestigiá-lo e tentar obter uma ajuda em dinheiro para ela e suas duas irmãs que ficaram em Coethen. Nesta ocasião, um jovem médico vindo de Lyon, Bento Mure, declamou um longo poema que escrevera para Hahnemann. Mure depois viria para o Brasil, introduzindo a Homeopatia em nossa terra. Aliás, Hahnemann interessa-se muito pelo desenvolvimento da Homeopatia em terras estrangeiras, como o Brasil, os Estados Unidos e a Inglaterra, interesse este comprovado na correspondência que troca com os médicos homeopatas destes locais.

Em 1840, aos 85 anos, Hahnemann empenha-se em preparar uma nova edição para o Organon, aproveitando seus horários vagos nesta tarefa. Em 1842, aos 87 anos, ele anuncia a um editor de Dusseldörf que a sexta edição está pronta. Esta sexta edição, contudo, só será publicada no século seguinte após muitas aventuras.

Em 1841, aos 86 anos, Hahnemann recebe o título de ‘cidadão honorário’ de Meissen, sua cidade natal, que lhe é entregue pelo embaixador da Saxônia em Paris. Hahnemann decide diminuir o ritmo de suas atividades médicas, deixando Mélanie substituí-lo cada vez mais nas consultas.

Ele deseja que, após a sua morte, Mélanie possa continuar clinicando como homeopata. Assim, em 1841, pede a Constantino Hering, que fundara um instituto que formava médicos homeopatas nos Estados Unidos, um desses diplomas para ela, mas não obteve qualquer resposta. No ano seguinte, o mesmo se deu, e só em 1843, decide atender ao pedido. Em agradecimento, Hahnemann envia um molde em gesso de seu busto para o instituto, mas o navio naufragou e tudo foi perdido.

Continua a escrever e fazer experiências e o último trabalho que escreve é o estudo de Arsenicum album que integra ao Tratado das Doenças Crônicas.

Em 1842, Hahnemann, aos 87 anos, recebe novamente o Dr. Frederico Quin para estudar Homeopatia por um ano, ao fim do qual voltou a Londres para inaugurar dois anos depois a Sociedade Homeopática Britânica e, em 1849, o Hospital Homeopático de Londres. Graças às relações com a nobreza que o Dr. Quin mantinha, a Homeopatia passou a ser a forma de tratamento preferida pela corte da Inglaterra, o que persiste ainda hoje.

Em 1843, aos 88 anos, Hahnemann sofre mais intensamente com problemas pulmonares, alimentados pelo seu tabagismo. Como todos os médicos, ele automedica-se. Depois, recorre a um de seus mais fiéis alunos, o Dr. Chatman. Mélanie o mantém isolado, provocando boatos de que já estaria morto. Suas filhas são avisadas em Coethen, e Amália volta a Paris, acompanhada de seu filho de dezessete anos de idade, Leopoldo Suss, futuro médico homeopata. Mélanie não deixa que eles vejam Hahnemann, só liberando sua entrada nos aposentos algumas horas antes de sua morte, porém este já não reconhece a filha e o neto. Percebendo que sua morte era inevitável, ele manifesta a Mélanie o desejo de que em sua sepultura seja inscrita a expressão ‘Non inutilis vixi’ (não vivi em vão), mas ela não o cumpriu. Ela disse-lhe, tentando confortá-lo, que por ter aliviado e curado tantas pessoas e ter passado por tantas dificuldades na vida, a Divina Providência cuidaria para que ele não sofresse mais. Ele respondeu imediatamente: “Para mim, por que para mim? Cada um neste mundo trabalha de acordo com os dons e possibilidades que recebeu da Divina Providência. Deus não me deve nada. Eu devo muito a Deus.” Morre às cinco horas da manhã, no dia 2 de julho, nos braços de Mélanie.

 

No dia seguinte, o falecimento é anunciado na câmara do distrito pelos Drs Jahr e Croserio. Seu corpo é embalsamado e fica em casa por alguns dias, onde familiares e discípulos vêem prestar uma última homenagem. Mélanie recebe permissão da polícia para manter o corpo de seu marido em casa por alguns dias. Na manhã de 11 de julho de 1843, seu corpo é transportado para o cemitério de Montmartre, numa cerimônia simples, sem flores, sem coroas, sem discursos, sem bênçãos, na presença apenas de Mélanie, Amália, Leopoldo e um jovem farmacêutico, sobrinho do tutor de Mélanie.

É de notar-se que Hahnemann ficou célebre como o pai da Homeopatia, ofuscando diversas outras facetas importantes da reforma médica que ele propunha e que frutificaram, como o tratamento psiquiátrico humanizado, a necessidade da medicina basear-se na experiência, a importância da química, e o valor de uma dieta balanceada, exercícios físicos, ar puro, instalações sanitárias, descanso adequado e alegria para  a saúde. Muito da moderna medicina, mesmo a alopática, deve-se a estas noções que Hahnemann introduziu, e a história não lhe creditou.

Os jornais pouco noticiaram sobre seu funeral, mas destaca-se uma nota no Jornal dos Debates:

Não seguiremos Hahnemann nas diversas fases de sua longa carreira, mas qualquer que seja a opinião que se tem de suas doutrinas, não podemos deixar de reconhecer que ele ostentou na perseguição de sua idéia uma perseverança inabalável, sustentada por uma convicção forte e profunda, unida ao coração mais verdadeiro, à alma mais dedicada.”

 

Marcelo Guerra Ferreira de Souza, Médico Homeopata.

Hahnemann vê o crescimento da Homeopatia

“Estamos trabalhando para o bem da humanidade.”

Em 1825, aos 70 anos, Hahnemann recebe novos ataques, um livro intitulado “Anti-Organon”, escrito por um certo Professor Heinroth, e outro chamado “Verificação do Sistema Homeopático”, pelo Professor Wedekind, ambos defendendo veementemente as sangrias, vomitórios e purgativos da medicina oficial. Hahnemann toma conhecimento do teor de ambos os livros, mas reage com indiferença. Em uma carta ao Dr. Stapf compara os ataques contra à Homeopatia à reação que a vacina recentemente desenvolvida por Jenner encontrava na Inglaterra: “Contei mais de vinte artigos a esse respeito que, neste momento, devem estar servindo de papel para embrulhar queijos nas mercearias!”

Neste mesmo ano, sua biografia cruza-se com a de outro homem que tornar-se-á uma figura de enorme importância na difusão da Homeopatia, Constantino Hering, nascido na Saxônia como Hahnemann. Em 1821, quando contava 21 anos e estudava medicina também na Universidade de Leipzig, um de seus mestres, o Dr. Robbi propôs-lhe fazer seu trabalho de conclusão de curso refutando os princípios da Homeopatia. Hering aceitou e começou a reunir a documentação para este fim. Enquanto dissecava um cadáver, picou-se no dedo com um fragmento de osso, o que era aterrorizante à época por não haver antissépticos eficazes, assim o risco de gangrena era enorme. Um médico que praticava a Homeopatia, recomendou-lhe tomar Arsenicum album e em poucos dias o dedo cicatrizou sem seqüelas. Ele convenceu-se com essa experiência pessoal, abandonou a tese hostil à Homeopatia e entrou em contato com Hahnemann para colocar-se à sua disposição, que respondeu-lhe para ser prudente e não deixar que os alopatas da faculdade soubessem que havia aderido à Homeopatia, pois provavelmente o teriam impedido de graduar-se, e depois de formado exercer livremente a Homeopatia. Como recusou-se a escrever o artigo refutando a Homeopatia, foi obrigado a transferir-se de faculdade. Depois partiu para o Suriname numa expedição científica financiada pelo príncipe da Saxônia, onde realizou patogenesias importantes que enriqueceram o conhecimento homeopático. Daí seguiu para os Estados Unidos, onde introduziu a Homeopatia. Hering e Hahnemann  mantiveram uma correspondência abundante até a morte do mestre.

Em 1826, aos 71 anos, Hahnemann recebe o Dr. Frederico Quin, um médico que pertencia à nobreza inglesa, filho de uma duquesa, e que fôra tratado com sucesso pela Homeopatia em Nápoles. A conversa com o mestre não impressionou o jovem médico, que voltou a Londres para tornar-se um dos médicos da Rainha Vitória.

Em 1828, aos 73 anos, Hahnemann publica o Tratado das Doenças Crônicas, que já vinha escrevendo nos intervalos de suas consultas. Neste livro, o segundo pilar da Homeopatia, Hahnemann traz idéias revolucionárias. Sempre baseado na experiência clínica, Hahnemann percebe que a similitude, que ele trouxera ao mundo de forma sistematizada em seu Organon, não era capaz de curar todos os doentes. Alguns doentes tinham curas incompletas, outros apresentavam recaídas, outros não melhoravam nada. Isto desafia sua hipótese da similitude como lei terapêutica universal. Ele percebe que por trás da doença aguda que aflige o doente e o faz buscar tratamento, há uma outra coisa, que ele chama de “doença crônica” permanente, profundamente enraizada e que precisa ser tratada para que o doente possa ser tratado de maneira eficaz e definitiva. Este termo também foi chamado por ele de “miasma”, e os franceses posteriormente vieram a chamar de “terreno” ou “diátese”, nome que é preferido atualmente. Este miasma é o nosso modo de reagir aos agentes nocivos que nos acometem constantemente, e condiciona as doenças que vamos desenvolver a partir destas agressões.

Ele classifica os miasmas em três, baseado em suas observações clínicas. A sicose é um miasma que provoca formações tumorais, verrugas, corrimentos, hipertrofias em geral, e ele relaciona á exposição prévia à gonorréia. A luese é outro miasma, relacionado por ele a uma infecção anterior por sífilis, caracterizada por ulcerações e esclerose. O terceiro e mais importante miasma é a psora, proveniente de uma infecção prévia pela escabiose, é a mãe de todas as doenças, sendo condição para a existência dos outros miasmas, e é caracterizada por doenças alérgicas, doenças de pele, fraqueza, perturbações digestivas, doenças relacionadas por fraqueza da função de um determinado órgão ou sistema.

Ele apresenta uma lista enorme de sintomas ligados a cada um dos três miasmas e os correlaciona a alguns remédios, que ele percebe ter uma ação mais profunda do que outros, atingindo este nível miasmático. Dentre eles, destaca a Thuya como remédio preferencial da sicose, o Mercurius vivus para a luese e o Sulphur para a psora.

Após esta publicação, a Homeopatia sofreu uma importante guinada, deixando de tratar somente doenças isoladas e passando a também tratar o terreno que propicia o surgimento destas mesmas doenças. Percebe que muitas vezes uma doença aguda representa uma melhora do miasma predominante, um sinal de que o paciente está encaminhando-se em direção à cura, é a manifestação de uma força vital tentando restabelecer o equilíbrio perturbado.

Este importante tratado, no entanto, causou uma grande controvérsia entre os médicos homeopatas, que entenderam de forma simplificada a teoria sobre a psora ser a raiz de todas as doenças, considerando-a somente como a escabiose, o que consideravam inadmissível.

Desde o início de suas conferências em Leipzig Hahnemann sempre manteve uma extensa correspondência com seus discípulos, como já fazia com seus amigos (como o Conselheiro Becker) e familiares (como sua irmã Carlota). Seus correspondentes mais assíduos são Dr. Stapf, Dr. Gross, Dr. Franz, Dr. Hartmann, Dr. Rückert, Dr. Aegidi, Dr. Wislicenus, Dr. Hering, Dr. Brunnow, Dr. Jahr e o botânico Böenninghausen.

Em 1829, aos 74 anos, celebrou-se em Coethen o jubileu médico de Hahnemann, comemorando os 50 anos em que apresentara sua tese de fim de curso em Erlangen. O anúncio sai nos Arquivos de Medicina Homeopática. A cerimônia contou com mais de quatrocentos homeopatas vindos da Alemanha e de outros países para homenagear o grande mestre, a quem foi dedicado um busto esculpido pelo escultor Dietrich Junge, pelos seus alunos, amigos, pacientes e admiradores. O Dr. Stapf entrega-lhe um cofre de veludo vermelho contendo duas medalhas de ouro prata cunhadas com seu perfil e um livro especialmente mandado preparar com textos escolhidos dentre suas próprias obras. Depois, discursa para o mestre: “Desejamos que, com a ajuda destas páginas, possa reencontrar o espírito dos dias passados. Esperamos que possa regozijar-se com o que realizou e com aquilo por que combateu com seu trabalho, agora coroado de glória e de afeto.” Dentre as homenagens, recebeu um diploma de honra da Faculdade de Erlangen, presentes e uma carta pessoal do duque e da duquesa de Coethen, com agradecimentos e felicitações. Nesta ocasião foi feita uma coleta entre os médicos, que resultou numa considerável quantia, que foi destinada à criação de um hospital homeopático. Decide-se reunirem-se todos os anos à mesma data, 10 de agosto, o que configura a primeira associação homeopática. A alegria de Hahnemann foi tamanha! Em cartas a alguns de seus alunos, escreve agradecendo e manifestando a alegria pelo reconhecimento dado ao seu trabalho e à Homeopatia, que se fundem num só.

Em 1830, alguns dias antes de completar 75 anos, perde aquela que foi sua companheira nas mais difíceis e desesperadas jornadas pelas quais Hahnemann passou. Sua esposa, Henrietta, falece após um mês sofrendo de uma grave infecção pulmonar. Estiveram casados por 48 anos, e Hahnemann mergulha numa tristeza imensa, e escreve a Stapf: “Depois de largo sofrimento, adormeceu nos meus braços em 31 de março, pouco depois da meia-noite, com uma expressão descansada, e assim entrou na eternidade. No que me toca, sempre considerei, na minha casa, cada parte da minha mulher como o acontecimento mais importante da minha vida.”

Mais tarde, diversos homeopatas vieram criticar Henrietta, por seu caráter autoritário, sua rigidez no controle das finanças da família, seu humor ácido ao se referir às dificuldades financeiras do casal. Ora, quem enfrentara junto todas as dificuldades inerentes ao fato de ser casada com um médico que não tinha paradeiro certo, que primava pela obstinação e pela polêmica com os colegas, que tornavam sua vida profissional praticamente impossível? Criou dez filhos com tremendas dificuldades materiais, mas manteve-se sempre ao lado e dedicada a este homem revolucionário. Com pouco, fez muito. Ao morrer, Henrietta deixa em testamento todos os bens que estavam em seu nome a suas filhas que, através de escrituras, renunciam a esta herança em favor do pai.

Hahnemann passa muito tempo mergulhado no luto da perda da querida esposa. Está triste, chora, desenvolve uma febre que o obriga a ficar de cama por vários dias, deixando-o sem trabalhar por um tempo. Neste mesmo ano, em agosto, já com 75 anos, perde seu amigo e protetor, o duque Ferdinando. É outra perda importante! Ele emagrece, fica abatido durante todo este ano. Vive com suas filhas Carlota, a mais velha que não casou-se, e Luísa, que voltou à casa dos pais após separar-se. Após um certo tempo, ele volta a atender.

Em 1831, aos 76 anos, Hahnemann já recuperara o vigor físico e intelectual, trabalha bastante, atendendo em seu consultório, nas casas de alguns pacientes e também muitas vezes por correspondência. Este é o ano que a epidemia de cólera, que começara em 1817 na Índia, chega à Europa, facilitada pelas más condições de higiene e a falta de esgotos. A epidemia é avassaladora, mata mais de quatrocentas mil pessoas na Alemanha, o mesmo número na Rússia, cem mil na França e outro tanto na Espanha. A medicina oficial recomenda a sangria, o que, hoje se sabe, agrava muito a desidratação, sendo a provável responsável pelo número tão alto de mortes. Hahnemann publica quatro livretos dedicados ao tratamento da cólera:

  1. Tratamento Curativo da Cólera
  2. Carta a Propósito do Tratamento Curativo da Cólera
  3. Tratamento e Erradicação da Cólera Asiática com as Regras de Higiene Homeopática
  4. Aviso aos Filantropos sobre o Modo de Contágio da Cólera Asiática

Ele abre mão dos direitos autorais destas obras, seu único objetivo é servir aos seus concidadãos que sofrem muito com a epidemia. Nestes livretos a primeira indicação é a higiene dos doentes, dos acompanhantes, das casas, além de uma boa ventilação. Ele menciona que a cólera é transmitida por germes infinitamente pequenos, invisíveis, o que seria confirmado 67 anos depois por Robert Koch. Nesta situação, ele abre uma exceção à necessidade de individualização de cada doente, criando o conceito de “Gênio Epidêmico” ou “Similitude de Grupo”, aplicável a doenças epidêmicas, cuja variabilidade de sintomas é muito pequena nos doentes por elas acometidos, requerendo medicamentos comuns ao conjunto do grupo. Ele recomenda para tal epidemia três remédios: o Veratrum album, a Camphora e o Cuprum metallicum. O resultado do tratamento homeopático é incontestável. Por exemplo, em Raab, de 1.655 doentes com cólera, 1.501 foram tratados com sangrias, morrendo 821, e 154 com homeopatia, morrendo apenas 6! Uma proporção de 50% de mortalidade nos que usaram alopatia contra 3% dos tratados pela homeopatia. Estes e outros resultados durante esta epidemia impressionam tanto que até um padre de renome da Catedral de Viena, faz um discurso em seu sermão pregando o uso da Homeopatia, que ainda estava proibida na Áustria. Vários médicos na Europa passam a usar a Homeopatia para tratar a cólera, sempre com muito sucesso. Este sucesso trará autorização oficial para o exercício da Homeopatia em diversos países.

Hahnemann enfrenta a oposição

…têm inveja da minha reputação, das minhas descobertas, dos meus escritos e dos meus tratamentos que, pela graça de Deus, têm tido sucesso.”

 

Em 1819, aos 64 anos, Hahnemann sofre dois duros golpes. O primeiro foi infligido pelo Imperador Francisco I que, incitado por seu médico particular, o Dr. Von Stift, inimigo atroz da Homeopatia, proíbe a prática desta arte terapêutica em todo o Império Austro-Húngaro. Felizmente, o decreto não foi fiscalizado com muito rigor, e Hahnemann continuou a exercer sua metodologia em Leipzig, sem ser incomodado.

O segundo golpe veio dos farmacêuticos. Apesar de ser genro de um farmacêutico, Hahnemann sempre questiona a consciência profissional desta classe e considera-os incompetentes e inescrupulosos, e continua preparando e vendendo seus remédios e incita seus alunos a fazerem o mesmo. Em 1819, a Associação dos Farmacêuticos de Leipzig apresenta queixa contra ele no tribunal municipal, por exercício ilegal de farmácia. Em fevereiro de 1820, contando Hahnemann 64 anos, vai a julgamento, e apresenta sua própria defesa, oralmente e por escrito, num calhamaço de mais de cinco mil palavras, mas que basicamente apoiava-se em dois argumentos:

  1. como o remédio homeopático é sempre uma droga simples, não pode ser considerado um medicamento que, por definição regulamentar, é uma fórmula complexa de preparar, não se aplicando o privilégio farmacêutico a este caso;
  2. como a Homeopatia só trabalha com doses infinitesimais, e o farmacêutico é pago conforme o peso da substância medicinal entregue, não há justificativa para o preço cobrado e o farmacêutico não ganharia portanto absolutamente nada.

A sentença é pesada: Hahnemann é condenado a não mais exercer sua prática ilegal sob pena de multa diária, mas recorre da decisão.

As críticas à Homeopatia surgem freqüentemente nos jornais para médicos e para leigos. Uma, até muito construtiva, afirma que se Hahnemann não atacasse tanto os médicos convencionais, a Homeopatia poderia receber maior atenção e estudos por parte deles. Uma outra, mais cínica, afirma que os pacientes tratados alopaticamente morrem do tratamento, enquanto os tratados homeopaticamente morrem da doença mesmo. Hahnemann não respondeu a estas críticas.

Em abril de 1820, já com 65 anos, Hahnemann é procurado para tratar o Príncipe von Schwarzenberg, que no ano anterior, aos 46 anos, sofrera um derrame cerebral, e ficou com dificuldade para voltar a andar e falar e com insônia severa, como seqüelas. Apesar dos tratamentos, demorava muito a melhorar, e um dos seus médicos, que se interessava pela Homeopatia, recorre a Hahnemann. Este sente-se honrado, mas nega-se a deslocar-se, por estar muito ocupado com sua clientela, já sentir-se velho e cansado, e além do mais estar proibido de exercer a Homeopatia na Áustria. A recusa em ir ao encontro do príncipe causa um certo escândalo, mas a reputação de Hahnemann estava tão em alta, que o príncipe foi ao seu encontro. O príncipe chega então a Leipzig para ser tratado por Hahnemann. Cabe ressaltar que o príncipe era muito popular, por ter liderado dois ataques que impuseram duras derrotas a Napoleão, e estava no auge de sua glória.

O início do tratamento foi muito promissor, tendo o príncipe melhorado bastante, tanto que escreveu a seu primo, o rei da Saxônia, que estava querendo fiscalizar melhor a proibição da Homeopatia em seu território, a não incomodar Hahnemann em sua prática, e o rei aceita o pedido. Contudo, o príncipe cansou-se do regime frugal imposto por Hahnemann e recomeçou seus excessos regados a bebidas e muita comida, tendo uma recaída ligeira. Um de seus médicos particulares resolveu fazer uma sangria e Hahnemann chegou aos aposentos do príncipe no exato instante em que era feita a intervenção. Saiu sem dizer palavra e nunca mais pôs os pés na casa do príncipe, que veio a morrer cinco semanas depois. A necrópsia foi realizada por Hahnemann, pelo Dr. Von Sax, médico particular do príncipe, pelo Professor Clarus, um antigo inimigo da Homeopatia e pelo Dr. Bock, médico legista. Nela constatou-se um aumento exagerado do coração do príncipe, com lesões cardíacas e cerebrais importantes, e comprovando a provável incurabilidade do paciente. O Professor Clarus aproveitou a oportunidade para registrar um adendo à necrópsia, acusando a Homeopatia de ter-se revelado nefasta por ter atrasado a ação do tratamento enérgico, no caso as sangrias, a que os estado do ilustre paciente obrigava. Vale dizer que este tipo de acusação foi levantado, e ainda o é, várias vezes contra a Homeopatia. Hahnemann acompanha o cortejo fúnebre, convicto de sua consciência.

Neste mesmo ano tratou do ilustre Goethe, que beneficiou-se do tratamento homeopático e elogiou muito Hahnemann em cartas, a quem comparou a Paracelso, pelo espírito inovador.

Em novembro deste ano, o Conselho Municipal profere a sentença definitiva ao recurso impetrado por Hahnemann no caso dos farmacêuticos, confirmando a proibição da entrega de remédios, mas fazendo uma ressalva de que ele estava liberado para fazê-lo em casos de urgências, ou se não houvesse nenhuma farmácia de fácil acesso, e no caso dos indigentes, a quem eram entregues sem custos. Hahnemann não concordou, mas conteve sua ira. Estas concessões, na verdade, são praticamente as mesmas feitas a qualquer médico à época.

O Professor Clarus e seus companheiros aumentam os ataques a Hahnemann e seus alunos, inclusive com perseguições profissionais e jurídicas. Em um episódio lamentável, um oficial de justiça apreende remédios homeopáticos na casa de Karl Franz e os queima no adro da igreja de São Paulo.

Leipzig é assolada por uma epidemia de febre que causa petéquias (pequenas manchas avermelhadas por extravasamento de sangue dos capilares), possivelmente a nossa tão conhecida dengue, e Hahnemann publica um artigo afirmando que não se trata de escarlatina, mas de febre púrpura e o tratamento com Belladonna não resultará em sucesso, devendo ser usado para esta epidemia o Aconitum. O Professor Clarus e mais uma dúzia de médicos partem para o ataque, afirmando que trata-se sim de escarlatina e que os remédios à base de Belladonna que prescrevem estão corretos, e que Hahnemann é um ignorante no que tange a diagnóstico e um impostor em terapêutica, e que haviam descoberto a Belladonna bem antes que ele. Logo no dia seguinte, o Dr. Müller, um colega de Hahnemann afirma, no mesmo jornal tratar-se de febre púrpura e confirma a eficácia de Aconitum nos seus pacientes acometidos pela epidemia.

Alguns dias depois, Hahnemann responde: “Existem treze personagens, meus colegas nesta cidade, que se debatem energicamente para provar aos leitores que têm inveja da minha reputação, das minhas descobertas, dos meus escritos e dos meus tratamentos que, pela graça de Deus, têm tido sucesso.”

Estes médicos e os farmacêuticos perpetram repetidos ataques a Hahnemann, tentando obrigá-lo a sair de Leipzig, mas o presidente da Câmara Municipal da cidade envia ao supremo tribunal, em Dresden, um protesto assinado por quarenta cidadãos contra estes ataques. O tribunal acata o protesto dos reclamantes e autoriza Hahnemann a permanecer na cidade, que porém já estava farto desta cidade, sentindo-se apenas tolerado aí. Os médicos contrários à Homeopatia, liderados por Clarus, o atacam incessantemente; os farmacêuticos o vigiam para que não prepare e entregue medicamentos aos seus pacientes (e ele continua não confiando na integridade destes para preparar suas receitas, apesar de seu Dicionário de Farmácia ser uma obra de referência para praticamente todos os farmacêuticos alemães); sua mulher e suas filhas são vítimas de zombarias nas ruas, sendo chamadas de a “família do charlatão”.

Hahnemann escreve uma carta a um irmão de maçonaria, na tentativa de voltar a Gotha, onde dirigira o manicômio de um louco só, mas não obtém resposta. Recebe propostas para instalar-se na Prússia, onde as leis farmacêuticas são mais brandas, mas não deseja mais sair de sua Saxônia natal.

Em junho de 1821, aos 66 anos, Hahnemann muda-se para a pequena cidade de Coethen, deixando para trás Leipzig onde, apesar dos intensos ataques sofridos, a Homeopatia criou fortes raízes. O duque Ferdinando, que governa esta região, é um de seus pacientes mais fiéis, e também seu irmão de maçonaria, e Hahnemann escreve-lhe pedindo autorização para aí instalar-se. A resposta do duque veio quase que imediata, dando-lhe calorosas boas vindas e autorizando-o a manipular seus próprios remédios.

Esta mudança é diferente das anteriores, pois Hahnemann conquistara prestígio e dinheiro, apesar dos ataques inclementes de seus opositores. São 11 carroças carregadas de móveis, roupas, livros, todos os seus pertences, enfim. Eles partem na madrugada de 13 de junho de 1821, sob o olhar de despedida de numerosos discípulos que vieram despedir-se. Dois destes discípulos acompanham-nos a Coethen, os Drs. Augusto Haynel e Teodoro Mossdorf, este último noivo de Luísa, sua filha mais nova.

Devido à distância pequena de 50 quilômetros e Leipzig a Coethen, eles chegam à nova moradia à noite deste mesmo dia, e ficam numa estalagem por oito dias, tempo necessário para aprontar a nova casa. Alguns médicos opositores manifestam-se hostilmente, vaiando, assobiando e jogando pedras em sua janela, mas logo isso se acalma.

Instalam-se na nova casa, enfim, que dispõe de um amplo jardim, e é muito bem localizada. A rotina de trabalho logo se instala também: Hahnemann e seus dois alunos começam a atender no térreo da casa, suas filhas marcam as consultas,e Frau Henrietta cuida da casa. A cidade é muito pequena, conta com seis mil habitantes, e não dispõe de atividades culturais ou de lazer, o que entedia e aborrece Hahnemann, que torna-se irritadiço com sua família. Cem anos antes, Johann Sebastian Bach residira aí por seis anos e aí compôs obras importantes.

 

Hahnemann consegue aí uma tranqüilidade que ainda não conhecia, podendo dedicar-se ao trabalho e suas pesquisas. Acorda às seis horas no verão e às sete no inverno, arruma-se, toma café da manhã com sua família, dá uma pequena volta em seu jardim, faz uma ginástica leve , e às nove horas começa a atender, indo até o meio-dia, quando vai almoçar com sua família. Seus pratos preferidos são carne de vaca assada, carneiro, salmão ou carne de caça. Detesta vitela ou porco, ou especiarias fortes. Sempre come vegetais, preferindo os da região, como couve, feijão, batata. Aprecia a cerveja, que considera muito importante para a manutenção de uma boa saúde. Não gosta muito de vinho, mas toma eventualmente para acompanhar algum convidado. Não suporta o café, que considera um verdadeiro veneno, e não toma chás, por considerá-los remédios e não bebidas refrescantes. Após o almoço, faz a sesta por cerca de uma hora. Retoma suas consultas às duas horas da tarde e estende-se até às sete da noite. Seu lugar preferido é seu jardim, onde volta após o trabalho para mais um passeio. Seguia para jantar com sua família, e depois sentava-se nos fundos de sua casa e fumava em seu velho cachimbo de barro. O fumo causou-lhe uma bronquite crônica que o faz tossir e pigarrear freqüentemente.

Em 1822, foi fundado pelo seu discípulo Dr. Stapf um jornal especializado na Homeopatia, chamado Arquivos de Medicina Homeopática, o que muito agrada a Hahnemann, aumentando a admiração que já nutria por este aluno.

Em 1824, aos 69 anos, Hahnemann dá a mão de sua filha Luísa em casamento ao Dr. Mossdorf, que trabalhava, por indicação do sogro, como médico da família do duque Ferdinando. Apesar de seus altos salários, Mossdorf afunda-se em dívidas, sua sogra nutre um desgosto muito grande, e Luísa volta a viver com seus pais e Mossdorf deixa a cidade. Hahnemann assume o posto de médico da família do duque, como uma questão de honra, e é reconhecido por este gesto através de várias cartas muito gratas que o duque Ferdinando lhe envia, e até mesmo pelo jornal local. O duque nomeia Hahnemann seu conselheiro.

Hahnemann publica sua Materia Medica e enfrenta guerra e epidemia

Estou no centro do círculo da minha querida família. Uma mulher de rara bondade, sete filhas quase criadas, alegres, inteligentes, que me tratam com todo o carinho e que adoçam a minha vida com música. Não acham que é de invejar?”

Encontramos Hahnemann em 1811, aos 56 anos, polemizando com os colegas médicos e com os farmacêuticos, defendendo suas idéias com toda a tenacidade, determinação, obstinação e agressividade cabíveis, mas vivendo uma vida em família bastante tranqüila.

       

 

O dinheiro continua escasso, apesar de uma certa melhora. Os filhos são educados basicamente pela Sra. Hahnemann, Henrietta, de forma austera e religiosa. Frau Henrietta, como Hahnemann a chamava, então com 47 anos, era uma mulher fechada, autoritária e mordaz, e impõe medo nos jovens alunos de Hahnemann que freqüentam sua casa. Hahnemann, porém, sempre louva a ternura e dedicação de sua esposa, a quem atribui a responsabilidade de ser a “viga-mestra do lar”, companheira dos poucos bons e dos muitos maus momentos. Ela aprecia música e a família toca e canta junta. Hahnemann ensina francês às filhas, que era essencial na educação de uma boa moça à época, e Henrietta lhes ensina a tocar piano. Elas demonstram um interesse pela moda, que seu pai não aprecia nem um pouco, mas não as proíbe de vestirem-se da maneira que elas desejam.

 

Napoleão traz a guerra para dentro dos territórios de língua alemã, arrasando a Baviera, a Prússia, a Saxônia e a Áustria. Em 1811, Torgau transforma-se em acampamento entrincheirado das tropas francesas em luta contra a Prússia, e Hahnemann vende sua amada e confortável residência e muda-se para Leipzig. Apesar da guerra, vende bem a sua casa e instala-se num bairro elegante de Leipzig.

Lá, conquista uma boa clientela, mercê da notoriedade conquistada por seus trabalhos escritos e polêmicas que os acompanharam. Vive mais confortavelmente, embora não seja rico, já que também não corre atrás de fortuna. Dedica-se a atender a clientela, a estudar, a propagar a Homeopatia.

No final de 1811 cria um Instituto de Homeopatia, e inicia um curso de pós-graduação em Homeopatia, voltado para médicos. Anuncia no jornal de seu querido e fiel amigo Conselheiro Becker. Contudo, não há inscritos.

No início de 1812, Hahnemann procura o diretor da faculdade de Medicina pedindo autorização para dar conferências aos estudantes, e este responde que para isso ele terá que submeter-se perante um júri para defender uma tese e pagar uma taxa não muito módica. Ele aceita submeter-se à prova, e apresenta, em latim, “Dissertação histórica e médica sobre o heleborismo dos antigos”, que discorria sobre o Veratrum album e o uso que os médicos antigos faziam dele. O grande anfiteatro ficou lotado, com docentes que formavam o júri e numerosos médicos da cidade, em meio a uns tantos curiosos. A apresentação de quatro horas, sem o auxílio de qualquer anotação, foi brilhante, principalmente pela quantidade e riqueza de suas citações, num discurso em latim, com citações em grego, hebraico, alemão, inglês, francês, italiano e árabe. Hahnemann foi bem prudente ao apresentar este trabalho, não fazendo qualquer alusão à Homeopatia, sendo um trabalho puramente histórico. Ele consegue, assim, autorização para dar as suas conferências, que se iniciam em setembro de 1812, quando contava então 57 anos.

As conferências ocorrem às quartas e sábados, de duas às três da tarde, e nelas Hahnemann é eloqüente, veemente, vociferando contra seus colegas médicos. O mestre, de baixa estatura (um metro e sessenta), vestido um pouco fora de moda, gritando com o rosto congestionado de ira, provoca risos e chacotas entre os estudantes, o que acentua ainda mais a ira e a congestão de sua face. Nem todos os alunos, porém, deixam-se levar pelas superficiais aparências, e demonstram um vivo interesse por suas idéias, procurando-o após as aulas, indo à sua casa estudar, assistindo às suas consultas. Este grupo reúne-se com o mestre à tarde, que os recebe em sua casa de roupão, de barrete de seda sobre a cabeça calva, fumando cachimbo e tomando uma cerveja leve. Ficam conhecidos como “o grupo de Leipzig” e participam das experimentações patogenéticas. Este “grupo de Leipzig” é formado por nove discípulos.

 

l  Enst Stapf, o favorito de Hahnemann, de 24 anos, que será um ardente defensor da Homeopatia e terá grande sucesso como médico, fundando um importante jornal para a divulgação da Homeopatia.

l  Karl Franz, estudante de teologia, seminarista que fôra curado por Hahnemann de um corrimento uretral muito semelhante à gonorréia, e possibilitou a este estudar a ação de Thuya sobre a sicose, uma das chamadas “Doenças Crônicas” que Hahnemann descreve no Organon, responsável pelo aparecimento de verrugas e corrimentos. Como o rapaz era decididamente virgem, não era possível que estivesse acometido com a desonrosa doença venérea. Na detalhada anamnese, Hahnemann descobriu que em sua casa, enquanto estudava, o jovem mordicava raminhos frescos de Thuya, e assim associa os sintomas ao que poderia ser uma intoxicação pela Thuya, pede ao rapaz que abandone este hábito, e o corrimento cessa. Curado, o jovem abandona a teologia e ingressa na faculdade de medicina.

l  Gustav Gross, que tornar-se-á eminente médico na Alemanha, e participará da fundação de um jornal para divulgação da Homeopatia.

l  Franz Hartmann, que foi aluno em Leipzig do Professor Clarus, o mais ferrenho adversário da Homeopatia à época, e depois de formado veio a dirigir o Hospital Homeopático de Leipzig, e deixou o importante legado de classificar com meticulosidade as plantas utilizadas no preparo dos remédios homeopáticos.

l  Christian Hornburg, que em suas primeiras férias da faculdade após iniciar os estudos com Hahnemann volta a sua cidade e fica clinicando sem diploma, sendo expulso da faculdade, e depois perseguido pela justiça e condenado a dois anos de prisão por exercício ilegal da medicina, veredito este que causa sua morte por um ataque cardíaco. Era considerado o mais brilhante dos nove, a quem os outros recorriam quando queriam poupar o mestre.

l  Frederico Langhammer, apesar de estudante, era dez anos mais velho que Hahnemann, e possuía uma saúde delicada devido aos excessos típicos da vida de um bon vivant, como é descrito por alguns colegas.

l  Wislicenus, exerceu a Homeopatia em Eisenach, muito isolado dos outros.

l  Ernst Rückert, que depois de formado não exerce a medicina, vai ajudar Hahnemann a redigir o “Repertório das Doenças Crônicas”, e morrerá no mesmo ano que o mestre, só que aos 48 anos.

l  Theodor Rückert, irmão mais novo de Ernst, será autor de diversas obras sobre a Homeopatia, e um ardoroso defensor da doutrina pura ensinada por Hahnemann.

A rotina de Hahnemann consiste em atender os doentes pela manhã, à tarde faz experiências e escreve, e ao fim da tarde sai com a mulher e as filhas mais novas para ir a um pequeno jardim que adquiriu num bairro de Leipzig, mantendo assim seu contato com a natureza. À noite, recebe os amigos e alunos, quando discutem casos clínicos, experimentações de remédios, e tocam música. Ele respeita e incentiva seus alunos a manifestarem suas próprias opiniões, mesmo que sejam contrárias às suas, e vez por outra ele convencia-se da certeza de alguma outra opinião. Hahnemann toca flauta, as filhas e sua esposa tocam piano e violino, num modo de vida bem na tradição germânica que privilegia a família, os amigos, a música e a natureza. Hahnemann aproveita a vida pacata para voltar a freqüentar uma loja maçônica em Leipzig.

Em 1813, contando 58 anos, Hahnemann e os demais cidadãos de Leipzig são “agraciados” com a malfadada presença de Napoleão Bonaparte, que chega para vigiar seu aliado, o rei da Saxônia e da Polônia, cuja fidelidade ao imperador conquistador deixa a desejar. Leipzig transforma-se num acampamento de tropas e artilharia, causando uma escassez de mantimentos, e sofre ataques constantes dos exércitos aliados da Áustria e da Prússia, que combatem o dominador francês. Os regimentos saxônicos, aliados de Napoleão, viram as armas contra o exército francês e juntam-se aos aliados, cujas tropas invadem a cidade. O imperador francês bate em retirada, e os cidadãos saxões, entre eles Hahemann, congratulam-se com a vitória contra o invasor.

Devido às sanguinárias batalhas, a cidade conta oitenta mil mortos e outros tantos feridos em apenas três dias de batalhas, que são atendidos nos edifícios da Universidade, improvisados como hospital de campanha. Hahnemann e seus alunos ajudam a cuidar dos doentes e feridos e têm bastante sucesso. Como as condições de higiene são terríveis, agravadas pela escassez de alimentos e destruição que a guerra deixou para trás, estoura uma letal epidemia de tifo entre os habitantes da cidade. Hahnemann e seus alunos tratam com Homeopatia muitos doentes, alcançando um grande sucesso, que causa uma considerável impressão em toda a Saxônia. De 180 doentes tratados por eles, só dois morreram, sendo um deles já muito idoso. Esta é a primeira demonstração pública da eficácia da Homeopatia, e Hahnemann publica os resultados no ano seguinte numa importante revista médica alemã, e não no jornal do Conselheiro Becker, pois este fôra fechado e o Conselheiro preso por defender em editoriais e artigos uma idéia de uma Alemanha unificada, reunindo todos os pequenos principados germânicos, que era uma idéia de inspiração francesa. Vale ressaltar que Hahnemann também defendia esta idéia, mas de forma privada, pois detestava a política e as guerras.

Entre 1811 e 1821 Hahnemann publica os seis volumes de sua Matéria Médica Pura, fruto de seu trabalho e de seus alunos e colaboradores nas experimentações. Neste período continua polemizando com os médicos defensores dos métodos clássicos.

Em 1816, aos 61 anos, Hahnemann perde sua filha Guilhermina, que era casada com o chefe da orquestra de Leipzig, com 31 anos, deixando órfão um jovem rapaz. Esta perda faz com que Hahnemann perca momentaneamente a vontade de entrar em discussões violentas, e continua a receber críticas ao seu método terapêutico.

Hahnemann publica o Organon

Que o semelhante cure o semelhante.”

Em 1805, aos 50 anos, mudam-se para Torgau, onde residirão por seis anos em uma casa própria, com jardim e um largo portão. Eleonora é desmamada e nasce mais uma filha, Carlota.

 

Seus livros e artigos tornaram-no conhecido. Continua fazendo traduções. Neste ano publica “Esculápio na Balança”, um livro polêmico que ataca as práticas médicas em voga na época, principalmente contra a prescrição de fórmulas compostas já prontas oferecidas pelos farmacêuticos. Prega o uso de remédios simples, de uma só substância, que o próprio médico deve selecionar e preparar. Mais uma vez ataca os colegas médicos e os farmacêuticos.

Ainda em 1805 publica “Fragmentos sobre as propriedades positivas dos medicamentos observadas no homem são”, uma obra dividida em dois volumes de 278 e 470 páginas cada. No primeiro volume apresenta as patogenesias (sintomas observados na experimentação em pessoas saudáveis) de 27 medicamentos. Aos resultados destas experimentações agrega efeitos toxicológicos e resultados terapêuticos. O segundo volume apresenta o que os homeopatas chamam de repertório, qual seja, um dicionário de sintomas indicando que medicamentos os provocaram em experimentações. É esta obra que permitirá que outros médicos comecem a exercer a Homeopatia em consultórios, sendo a primeira Matéria Médica Homeopática (dicionário de medicamentos que descreve os sintomas obtidos nas patogenesias) e o primeiro Repertório Homeopático.

Em 1806, com 51 anos, mais uma filha, Luísa, vem juntar-se à numerosa família. Sua situação financeira vem melhorando, principalmente com a venda de livros de sua autoria e de traduções, e de pacientes que vêm procurá-lo.

Em 1808, seu filho Frederico entra para a Universidade de Leipzig para estudar Medicina, e sua filha mais velha, Henrietta, casa-se com um pastor e muda-se para Dresdorf.

Em 1810, aos 55 anos, publica o “Organon da Ciência Médica Racional”, sua obra mais importante, e a mais importante até hoje para todos os homeopatas. Nesta obra, Hahnemann assenta as bases da Homeopatia, palavra que ele próprio inventou, significando “sofrimento semelhante”, pondo o princípio da similitude como central no tratamento das doenças. A primeira edição é aberta com um verso escrito na juventude por Gellert, um colega de Hahnemann da Escola do Príncipe:

“A verdade pela qual todo o ansioso mundo está ávido,

Que nos faz felizes, está desde sempre

Não profundamente enterrada mas superficialmente coberta,

Pela sábia mão que a destinou aos homens.”

Estes versos refletem a convicção que Hahnemann sempre manifestou de que Deus destinara aos homens a sabedoria para curar todas as doenças de forma ordenada e fácil e que esta revelação estava para acontecer a qualquer momento. Com a descoberta da lei da similitude, esta convicção firmou-se como sendo a Homeopatia A revelação divina esperada. Nas edições seguintes, o texto é aberto com  a inscrição que havia no portão de entrada da Escola do Príncipe: “Aude sapere” (ousa saber).

O termo organon já havia sido usado anteriormente por Aristóteles, designando os seis tratados devotados à lógica, e por Francis Bacon que afirmava que só se podia conhecer verdadeiramente a natureza pela observação metódica e racional, sem teorias preconcebidas, ou seja, uma observação fenomenológica, da qual se podem deduzir as grandes leis que regem os fenômenos naturais. Ora, o que Hahnemann introduz na medicina é um método racional de curar, baseado essencialmente na pura observação da doença e do doente, sem nenhum apriorismo. Ele critica a medicina da época, que é “condenada à ineficácia na medida em que só é teatro de hipóteses barrocas e muitas vezes contraditórias, de explicações, demonstrações, conjecturas, de dogmas e sistemas.” Em 1865, ou seja, 55 anos depois, Claude Bernard é saudado como iniciador da medicina experimental moderna, por propor que a medicina só pode ser experimental, ou seja, a teoria só pode suceder à experiência, num desprezo à história que mostra que Hahnemann foi o primeiro a propor este modelo.

Em 1819, tendo já esgotado a primeira edição do Organon, é publicada a segunda, que será a primeira a ser traduzida para outras línguas, tendo o título alterado para “Organon da Arte de Curar”. Em 1824, sai a terceira edição, e a quarta em 1829, onde Hahnemann propõe o conceito de Doenças Crônicas e de Psora, tão essenciais à prática homeopática. Uma quinta edição será publicada em 1835, que tornou-se a mais popular entre os homeopatas, principalmente pela releitura que James Tyler Kent fez em sua Filosofia Homeopática. No final de sua vida, Hahnemann redigiu uma sexta edição, com importantes modificações, como a escala Cinqüenta-Milesimal, e só foi publicada postumamente, em 1921. O Organon já foi traduzido em praticamente todas as línguas e é (ou pelo menos deveria ser) lido por todos os homeopatas do mundo, pois enumera os princípios da Homeopatia, como Similitude, Infinitesimalidade e Individualização.

A publicação do Organon suscita algumas reações apaixonadas, mas na maior parte a reação foi a indiferença. Ainda em 1810, um médico, o Dr. Hecker, que já havia polemizado 14 anos antes quando da publicação do “Ensaio de um novo princípio sobre as virtudes curativas das substâncias medicinais”, volta a atacar com veemência a Lei dos Semelhantes, e as baixas doses em que os remédios são usados. Hahnemann delega a defesa ao filho Frederico, que ainda não se formou médico e está então com 24 anos, através de um panfleto intitulado “Refutação dos ataques de Hecker contra o Organon da Medicina Racional, redigida por Frederico Hahnemann Filho”, com a matéria do texto fornecida pelo seu pai, com muitas zombarias contra “Hecker e consortes”, e poucos argumentos científicos.

Já o Jornal de Medicina e Cirurgia, mais respeitado na Alemanha, censura Hahnemann por seu orgulho, presunção e manifesta falta de fraternidade aos colegas médicos. Critica também a importância do princípio de similitude e das doses infinitesimais, suscitando ceticismo.

Por outro lado, Hahnemann também recebeu reações positivas à publicação do Organon. Em novembro de 1810, num editorial, o jornal Anais de Medicina Geral, elogia as qualidades de raciocínio e observação científica do autor. Outros colegas manifestarão uma impressão mais favorável às idéias contidas no Organon, e muitos médicos começam um exercício misto, ora homeopático, ora alopático, conforme o caso.

Hahnemann irrita-se sobremaneira com as críticas, e mais ainda com os médicos que jogam dos dois lados, e publica um artigo virulento chamado “Anticrítica ao público”, publicado em 1811, no jornal do Conselheiro Becker, onde compara-se a Copérnico por ter sido tão incompreendido ao propor uma idéia original. Apesar de escrever com suavidade, como “Os médicos são os meus irmãos em humanidade. Não tenho nada contra as suas pessoas”, afirma que falta coragem e boa fé aos seus colegas para aderirem às suas idéias.

Mudanças de Hahnemann

Em 1797, aos 42 anos, muda-se novamente, desta vez para Königslutter, onde residirá por dois anos. Fica sabendo que o posto de médico pessoal do duque Ernesto, de Gotha,  está vago e usa a influência de seu amigo maçom, o conselheiro Becker, para obtê-lo, mas o duque responde negativamente de forma ríspida. Sua reputação como médico está crescendo, e muitos pacientes vêm procurá-lo de longe, mas muitos o procuram por saberem que ele não cobra pelos remédios. Os médicos de Königslutter, invejosos de sua crescente fama, incitam os farmacêuticos a abrirem um processo contra Hahnemann por dispensar medicamentos, o que é uma prerrogativa das farmácias. Hahnemann fica proibido de preparar seus próprios remédios e ele tem que encaminhar seus pacientes para os farmacêuticos, em quem ele não confia nem um pouco.

Em 1799, aos 44 anos, muda-se para Altona, a 20 quilômetros de Hamburgo, um lugar sofisticado. Já é bastante conhecido dos médicos e do grande público, e seu nome suscita polêmicas, as pessoas ou gostam dele e de suas idéias ou o odeiam, ninguém fica indiferente. Recebe muitas cartas, algumas de insultos, mas a maioria de pessoas solicitando sua opinião e conselho sobre algum doente. De início, Hahnemann sente-se lisonjeado, mas depois incomoda-se muito com estes pedintes de consultas gratuitas. Publica então um anúncio no jornal local:

“Caro público!

Quase não dá para acreditar que haja tanta gente que pense que, só porque sou uma figura privada, tenho tanto tempo livre para que me atazanem a vida com repetidas cartas que nem vêm franqueadas e que tenho eu próprio de pagar. Essas cartas pedem-me opiniões médicas delicadas. Sou obrigado a dedicar-lhes um esforço intelectual e uma parte do meu tempo, que é precioso. Nunca passaria pela cabeça desses indelicados correspondentes enviar-me a mínima remuneração.

Para frear a onda sempre crescente desta correspondência, informo-vos do seguinte:

ñ de futuro, passarei a recusar qualquer carta sem franquia.

ñ Só responderei a quem pedir minha opinião se a carta vier acompanhada de um honorário suficiente, pelo menos uma moeda de ouro, a não ser que a pobreza do meu interlocutor seja tal que não lhe permita esta despesa. Se assim não fosse, estaria pecando contra a humanidade, o que não quero fazer.

ñ Finalmente, se me enviarem bilhetes de loteria como forma de pagamento, irei devolvê-los à custa do remetente.

Assinado: Samuel Hahnemann, médico, Altona por Hamburgo, 9 de novembro de 1799.”

O jornal teve sua seção de cartas dos leitores invadida por inúmeros protestos de médicos e leigos, indignados pelo tom violento do anúncio de Hahnemann, e sua popularidade no local ficou seriamente ameaçada.

Neste mesmo ano, o seu amigo, o Conselheiro Becker, envia-lhe um paciente que sofre de distúrbios mentais, acreditando que é Deus, para que seja internado em sua casa em Altona e receber um tratamento melhor. Chamava-se Johann Karl Wezel, e era um famoso autor de teatro austríaco, muito apreciado pelo público e pelo imperador José II. Após duas semanas, Hahnemann pede a seu amigo que venha retirá-lo, pois ele come demais, e a Sra. Hahnemann não dava conta de alimentá-lo, causando um prejuízo muito grande. Esta decisão causa uma má impressão junto ao público, até na corte de Viena. Muda-se para Hamburgo, mas vai passar poucos meses aí, devido ao altíssimo custo de vida, agravado pela inflação e escassez causados pela guerra.

A pobreza continua, há um acúmulo de dívidas, Hahnemann sai em 1800, aos 45 anos, para outra pequena cidade perto de Hamburgo, chamada São Jorge, e neste mesmo ano muda-se para Mölln, e depois para Lubeck. Junto à miséria, cresce a intransigência de Hahnemann. Em Mölln Hahnemann e Henrietta vêem pela primeira (e única) vez o mar, e moraram aí por menos de um mês.

Hahnemann tem alguns discípulos na arte da Homeopatia, e a eles recomenda que também manipulem eles próprios os remédios e os entreguem diretamente aos seus pacientes, por não confiar nos farmacêuticos. Esta atitude, logicamente, desagrada aos farmacêuticos.

Publica em 1800, aos 45 anos, um artigo no jornal Der Anzeiger, dirigido por seu amigo, o Conselheiro Becker, anunciando que descobriu e preparou um novo sal alcalino com propriedades terapêuticas, que pode ser entregue na própria casa do comprador, mediante pagamento. A Sociedade das Ciências Naturais de Berlim compra uma amostra, com o próprio selo de Hahnemann e a analisa, constatando que a descoberta trata-se do borato de sódio, o banal borax. Chamam Hahnemann para dar explicações, e chovem zombarias e insultos sobre o pretenso “inventor”. Um artigo escrito por um farmacêutico trata Hahnemann de “grande mistificador”, em outro é ressaltada a “inesperada imprudência desse Samuel Hahnemann”.

O Conselheiro Becker fica furioso com Hahnemann e este, por sua vez, reconhece seu erro num outro artigo publicado no Jornal de Química, alegando sua boa fé e, mostrando-se arrependido, informa que doará todas as quantias recebidas às obras de caridade de Leipzig. Além disso, apresenta suas desculpas numa carta aberta à população. O editor deste jornal, o Professor Scherer, toma a sua defesa num artigo publicado no jornal do Conselheiro Becker, invocando a honestidade e a retidão de Hahnemann e insistindo que tratou-se tudo de um erro técnico, dada a escassez de segurança que a recém-nascida Química ainda oferecia em seus resultados, que já enganara outros químicos famosos.

Logo depois deste episódio, Hahnemann publica um pequeno livro sobre prevenção e cura da escarlatina, que à época aparecia em epidemias fatais. A obra era vendida por uma moeda de ouro, pelo próprio autor, que junto entregava o remédio para o tratamento sem a identificação deste. Os farmacêuticos voltam à carga sobre Hahnemann, por pedir um pagamento antecipado e caro antes mesmo de iniciar qualquer tratamento e por não indicar a composição do remédio indicado no livro, que ele mesmo vendia. Para eles, é uma verdadeira fraude. Os colegas médicos unem-se aos farmacêuticos e agridem sua reputação profissional. O Conselheiro Becker, mal refeito do desgosto causado pelo episódio do borax, afasta-se de Hahnemann, e este escreve inúmeras cartas para reconquistar a confiança do amigo fiel. Revela seu segredo, sua fórmula e as experiências médicas sobre as quais apóia-se e publica em 1801, com a ajuda de Becker, um novo livro, de 40 páginas, chamado “Cura e Prevenção da Febre Escarlatina”. O medicamento que ele indica tanto para prevenir quanto para curar é a Belladonna, que ele utiliza de forma bem diluída, e mostrou ser extremamente eficaz, e foi reconhecido por isso posteriormente. Em 1825, o Professor Hufeland, editor do Jornal de Medicina Prática, publica um artigo intitulado “Efeito preventivo da Belladonna”, onde presta homenagem a Hahnemann. Em 1838 o governo da Prússia recomenda o emprego da Belladonna em doses muito diluídas na prevenção e tratamento das epidemias de escarlatina.

Escreve vários artigos entre 1801 e 1806 pregando o uso de substâncias baseadas na similitude de suas ações, e o uso de baixas diluições de medicamentos.

Em 1801, retorna à sua Saxônia natal, e vai morar em Machern, logo mudam-se para Eilenburg, seguindo-se Wittenburg e, finalmente, retorna a Dessau, onde conheceu sua esposa Henrietta.

Está com 47 anos, em 1802, e há 20 deixara Dessau para seguir uma vida de incertezas em que pouco exercera a medicina, dedicando-se mais a experimentos, traduções e escritos próprios. Sua família consiste de sua mulher Henrietta, 38 anos, sua filha mais velha chamada também Henrietta, com 21 anos, Frederico, 18 anos, Guilhermina, 16 anos, Amália, 15 anos, Caroline, 13 anos e Frederica, 9 anos. Neste período, desde a tradução da Matéria Médica de Cullen, onde experimentou em si mesmo a quinquina, vem experimentando em si e em alguns voluntários, as substâncias cujas propriedades medicinais ele quer conhecer.

Essas mudanças freqüentes são motivadas pela busca de uma situação financeira confortável, mas as guerras napoleônicas que alastram-se pela Europa o faz fugir de lugares que podem oferecer perigo à sua família. Por sua intransigência e falta de papas na língua, envolve-se em polêmicas com seus colegas médicos onde quer que vá, fazendo inimigos e enfrentando hostilidades, que muitas vezes atrapalham ainda mais a possibilidade de ganhar algum dinheiro. Hahnemann também gosta de viajar, de mudar de ares.

Em 1803, aos 48 anos, Hahnemann e sua esposa Henrietta são agraciados com mais uma filha, Eleonora.

Início na medicina e primeiros escritos de Hahnemann

“A notícia da morte de nosso pai irá tocá-lo tanto quanto tocou a mim. Estávamos os dois destinados a chorá-lo de longe.” (Auguste Hahnemann, irmão)


Em 1783, aos 28 anos, nasce sua primeira filha, chamada Henrietta como a mãe, ainda em Gommern. O afeto de Hahnemann por sua filhinha era muito grande, e para ela compôs uma canção de ninar:

“Durma filha, suavemente!

O passarinho amarelo canta no bosque;

Levemente ele pula sobre a neve e o gelo,

E dorme quieto nos galhos secos

– suavemente ele dorme.”

Em 1784, aos 29 anos, publica seu primeiro artigo criticando os médicos, chamado “Guia para curar profundamente as feridas antigas e as úlceras pútridas”. Nele, critica a sistemática cauterização cirúrgica das feridas. O artigo continha extensas referências à necessidade de medidas de higiene, que eram desconhecidas à época, e à importância de exercícios físicos. Termina o artigo afirmando que os pacientes ficariam melhor se não tivessem a assistência de um médico. Publica também alguns artigos médicos, condenando o uso de emplastros de chumbo ou de mercúrio, denunciando sua toxicidade. Em outros critica o abuso do álcool e do café, este último com muita veemência. Suas publicações são muito bem aceitas pelo meio médico, como atesta um elogio de um editor de um jornal médico, o Professor Baldinger: “O autor trata seu tema a fundo, corretamente. Mostra o lado nocivo dos tratamentos habituais e sugere melhores soluções.”

Neste ano, mudam-se para Dresden, que era uma cidade importante, a estadia preferida dos reis da Saxônia, era considerada a Florença do Elba. Lá recebe a notícia de que seu pai morrera, por uma carta de seu irmão mais novo, Auguste, que se tornara farmacêutico. “A notícia da morte de nosso pai irá tocá-lo tanto quanto tocou a mim. Estávamos os dois destinados a chorá-lo de longe.” Seu pai trabalhara até a morte aos 66 anos, como pintor de porcelana, mesmo com a visão muito enfraquecida. Foi enterrado em Meissen. Hahnemann escreveu em sua autobiografia: “Soube sempre distinguir entre o bem e o mal com tanta fineza e delicadeza, com tanta retidão, que isso foi para mim uma grande lição. Foi meu mestre. Sua concepção da origem do universo, da dignidade do homem e do seu destino marcava cada ato de sua existência. Eis aqui definido o verdadeiro fundamento da minha conduta moral.”

Hahnemann permanecerá em Dresden por 4 anos. Lá também atrai poucos clientes, contudo tem intensas atividades intelectuais e científicas. Através da Maçonaria, torna-se amigo do médico-chefe dos serviços públicos da cidade, o Dr. Wagner, que lhe pede para substituí-lo durante um ano em que esteve doente (31 anos). Assim, Hahnemann familiariza-se com os hospitais da cidade e interessa-se pelas questões de higiene da cidade. Passa a trabalhar como médico das prisões e médico legista. Conhece Lavoisier neste período, quando este visita Dresden.

Um outro amigo maçom, o conselheiro Adelung, chefe da Biblioteca do Príncipe, abre-lhe as portas da grande biblioteca da cidade. Neste período, Hahnemann escreve obras originais e realiza traduções, quais sejam:

Em 1786, aos 31 anos, escreve “Sobre o envenenamento pelo arsênico, seu tratamento e sua constatação do ponto de vista legal”.

Em 1787, aos 32 anos, traduz um livro do farmacêutico belga Van den Sande, sobre  pureza e adulteração de substâncias químicas, ao qual adiciona tantas informações derivadas de suas experiências químicas, que praticamente é um novo livro. Escreve “Critérios de pureza e de falsificação dos medicamentos”. Escreve sozinho 2 livros: “Dissertação sobre os preconceitos contra o aquecimento pelo carvão de terra. Como melhorar este combustível e sua utilização no aquecimento dos fornos” e “Sobre as dificuldades de preparar o álcali mineral pelo potássio e o sal marinho.”

Em 1788, aos 33 anos, escreve 4 obras: “Da influência de alguns gases na fermentação do vinho”, “Sobre os meios de detectar o ferro e o chumbo no vinho” (cujo método é utilizado até hoje para detecção de adulteração nos vinho para torná-lo mais doce), “Sobre a bile e os cálculos biliares”, “Sobre um meio eficaz de deter o processo de putrefação” (este último foi traduzido para o francês no ano seguinte e publicado em Paris no Jornal de Medicina.

Em 1789, aos 34 anos, publica um artigo sobre “Modo exato de preparação do mercúrio solúvel.”

Em 1790, aos 35 anos, outro artigo, “Exposição completa sobre a maneira de preparar o mercúrio solúvel”.

 

Estes livros e artigos tornam Hahnemann conhecido e respeitado na Alemanha e na Europa, mas trazem-lhe também inimigos. O trabalho sobre a toxicidade do arsênico leva à interdição dos remédios à base de arsênico, que eram tão usados para malária à época. Nesta obra, ele foi muito veemente, mostrando-se indignado contra “o degradante comércio de receitas que ofendem a terapêutica, essa ciência imitada de Deus.” Estes trabalhos demonstram a preocupação constante de Hahnemann com adulteração de substâncias, e esta preocupação seria a causa de sua eterna briga com os farmacêuticos. Os médicos, ele também os considerava cruéis, inescrupulosos e gananciosos, além de mancomunados com os farmacêuticos. Neste período, o interesse de Hahnemann é muito voltado para a química.

Já o mercúrio solúvel foi elaborado por Hahnemann no laboratório de seu sogro Häseler, em Dessau.

Enquanto escrevia esses livros, encontrou tempo para traduzir do inglês para o alemão o livro “História de Abelardo e Heloísa”, do inglês Barington, uma obra eminentemente romântica.

Aos 33 anos, nasce seu filho Frederico. A situação financeira continua difícil, sobrevive com os poucos clientes e o dinheiro ganho com traduções e publicações de seus livros. Em 1788, aos 33 anos, seu amigo Dr. Wagner, mal recuperado de sua doença, morre e Hahnemann concorre à sua sucessão, contudo é preterido pelo Dr. Eckhardt, mais velho e residente há longo tempo na cidade. Um ano depois o Dr. Eckhardt falece, mas Hahnemann decide não concorrer à sua vaga, acreditando que suas chances são mínimas.

Decide então deixar Dresden e mudam-se para Leipzig, aos 34 anos, após o nascimento de uma segunda filha, Guilhermina. Seus filhos, como ele próprio em sua infância, têm a saúde delicada, o que piora a situação financeira. Henrietta tricotava praticamente todas as roupas da família. Leipzig era uma próspera cidade industrial, com uma vida médica intensa, e chegam à cidade em 28 de setembro de 1789, dia de São Miguel.

O ano de 1789 foi marcado pela Revolução Francesa, que afetaria todo o continente europeu. E Leipzig era uma importante cidade da Europa Central, constituindo um centro econômico e cultural de monta. Era conhecida como “a cidade do livro”. Hahnemann reencontra sua primeira faculdade, que deixara há 13 anos, e torna-se assíduo freqüentador de sua biblioteca.