Saudade do meu pai

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Quando criança, eu queria que meu pai me ouvisse, que conversasse comigo. Claro, para a minha geração isso seria um comportamento muito excepcional. O usual era o pai dar ordens inquestionáveis, numa hierarquia rígida como num quartel, sob o risco do pai “perder a autoridade”. Isso era o que importava para os pais, esse era o valor maior a ser perseguido e mantido numa família: a autoridade. Sem autoridade, seria o caos: seu filho viraria um maconheiro ou um mariquinha, sua filha seria uma piranha ou uma mãe solteira, ou ambos virariam comunistas… Frases como “se não me respeita, então que tenha medo de mim” eram comuns nos lares daqueles loucos anos 70. A repressão política que a ditadura militar exercia nas ruas era repetida atrás de cada muro, de cada postigo da porta da frente. Ou não seria o contrário? Os militares estariam apenas levando para a rua aquilo que era comum dentro de cada casa? O que veio primeiro, o ovo ou a galinha? Tanto faz, porque era a mesma merda!

Meu pai não fugia à regra. Ele trabalhava, chegava em casa, sentava no seu lugar marcado (só ele e minha irmã tinham lugar certo na mesa) e era o rei do lar. Reclamações, ordens e silêncio. Ninguém podia incomodar meu pai quando ia assistir televisão. E quando as válvulas da Telefunken falhavam e a imagem sumia, eu tinha que levantar correndo para dar uma porrada do lado da televisão para que a imagem voltasse. (É bem verdade que sinto um pouco de saudade desse método de fazer as coisas funcionar, mas um roteador sem sinal não resistiria nem a um peteleco…).

Ele era distante e autoritário, mas eu o amava. Eu chorava de saudade quando ele viajou para o Pará, no Projeto Rondon, e fui super feliz ao Galeão esperar o avião que trouxe o meu pai com cara de quem não queria ter voltado. De qualquer maneira, eu não parava de questionar. Queria ser aviador da FAB, assim como metade dos meus amigos, mas meu avô me alertou: ‘militar não pode questionar nada. Se receber uma ordem não pode perguntar o porquê. Você vai passar mais tempo preso do que voando’. Me convenceu… Eu não queria ser obrigado a me calar e engolir ordens arbitrárias. Eu queria era voar!!!! E por muito questionar, batia de frente com meu pai quase sempre, tendo que me submeter ou às suas palavras ou à sua mão pesada.

Na adolescência, meu pai se aproximou mais e ousou me enxergar e me escutar. Ensinou-me a dirigir, sem paciência nenhuma, mas levou, assim como meu avô materno. Conversava sobre o colégio, sobre o que eu queria para o futuro. Na minha entrada para o segundo grau, ele fez algo que admiro muito. Eu já queria estudar medicina e o vestibular sempre foi difícil. Uma escola em Niterói tinha muitos alunos aprovados todo ano para medicina. Meu pai tinha estudado lá como bolsista no cursinho pré-vestibular. Fui fazer a prova de admissão para a escola e, no dia da prova, ele me levou (o que era bastante incomum), e durante a prova o diretor da escola o reconheceu no pátio, eles conversaram e o diretor perguntou se ele queria uma bolsa de estudos para mim. Ele recusou, dizendo ‘agora eu posso pagar para o meu filho’. Esse é um exemplo que meu pai deixou, de coerência e dignidade, que eu procuro seguir.

Quando eu passei no vestibular, cheguei em casa com a edição extra do jornal na mão (naquele tempo não existia internet!!!!!) e mostrei-lhe. Ele ficou muito feliz e me deu um dinheiro para eu ir à padaria comprar uma Brahma pra gente comemorar. Sentamos à mesa da cozinha e tomamos aquela Brahma, só eu e meu pai, que ali me reconhecia como um homem, como um amigo!

Meu pai mudou, e tornou-se meu amigo na vida adulta. Como eu fui morar no interior, falávamo-nos por telefone com frequência, contando sobre a vida, minhas conquistas de jovem médico iniciando a carreira numa cidade estranha, as dificuldades de adaptação, as alegrias de estar num lugar tão agradável. Chegamos ao ponto de ele também me pedir opinião sobre decisões que precisava tomar. Meus filhos nos aproximaram mais ainda, e ele amou muito esses netos e demonstrou esse amor! Ele nos recebia com um abraço apertado e um beijo, como ele nunca fez enquanto eu era criança. Acho que ele perdeu o medo de perder a autoridade… Deve ter aprendido que o carinho e o amor valem muito mais do que a autoridade.

Meu pai morreu cedo, sequer chegou aos 60 anos… Já se vão 12 anos que eu o perdi e ainda não me acostumei. Quando alguma coisa muito boa acontece comigo, penso em ligar para ele, para em fração de segundos lembrar que já não dá mais. Gostaria de poder contar com seus conselhos quando passo por situações de dúvida. Seus conselhos tão previsíveis na minha infância, foram cada vez me surpreendendo mais na vida adulta. Somente por esses motivos lamento a sua morte, mas alguns meses antes de morrer, ele me disse que tinha conquistado tudo que havia desejado na vida, que nada mais lhe faltava, que só sentia falta do seu pai.

Recentemente, passei por uma situação que tive que ficar fazendo exames e a princípio pensei que não tinha medo de morrer. Mas quando lembrei a falta que sinto do meu pai, imaginei como meus filhos sentiriam a minha falta e tive medo de deixá-los. Com meu pai, mesmo que por vias tortuosas, aprendi que o pai precisa estar presente na vida dos filhos, não pressionando, mas se colocando à disposição para aqueles momentos que parecem sem saída, e poder oferecer uma solução ou, ao menos, solidariedade e aconchego. Saudade do meu pai!

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Sabedoria Gaúcha

Esta música de Vitor Ramil é antiga e eu a ouvia muito num LP que ainda devo ter em algum lugar. Ela parece falar direto ao meu coração e à minha mente, sempre tão inquietos, sempre tão necessitados de paz e de se deixar levar. Hoje estava caminhando e ouvindo essa música, que repeti infinitamente no celular, e fiquei pensando o que mais aprendi com os gaúchos. Lembrei-me de três situações em que alguns gaúchos me influenciaram muito.

Uma foi um contato que fiz com a escritora Martha Medeiros. Minha filha Bia, de 17 anos, escreveu um texto no seu blog, quando tinha 14 anos, fazendo um resumo sobre sua vida. Lá, ela dizia que Martha Medeiros era sua inspiração. Eu entrei em contato com a Martha pelo e-mail que havia no jornal O Globo e, surpresa!, ela respondeu, de forma super gentil e carinhosa. Ainda mais, leu o blog e nos convidou para ir ao lançamento de um livro seu na livraria Travessa, em Ipanema. Eu levei Bia, mas não disse para quê. Foi uma emoção enorme quando Bia foi recebida pela sua ídola de forma tão carinhosa. Reaprendi com ela (Martha Medeiros) que, por mais sucesso e bajulação que a vida lhe ofereça, nunca preciso deixar de ser eu mesmo e ter carinho pelas pessoas.

Outra gaúcha que me ensinou muito foi a Fabiana Macchi, que participou de um seminário biográfico que organizei em São Paulo, nos tempos de DAO Terapias, com Rosângela Cunha. Eu tenho um coração cigano e gosto de mudar de lugar. Pois bem, a Fabiana me deu uma aula de coragem ao contar como foi morar na Suíça e dar aulas de alemão para quem é nativo na língua, quando ela mal sabia a língua, tendo que mergulhar nos livros para dominá-la e conquistar o seu sonho, tendo sido professora numa importante universidade lá, procurada por pessoas de todo o mundo que desejam aprofundar seus estudos na língua alemã.

O outro gaúcho é o pastor Adelcio Kronbauer, da Igreja Luterana em Nova Friburgo, que sabe falar como ninguém sobre a essência das coisas, desmistificando a religião. Isso, além de ser um amigo com quem se pode contar em momentos difíceis.

Como se vê, do Sul vem muito mais do que as frentes frias… Obrigado, gaúchas e gaúchos!!!

A Individuação segundo Goethe

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“Quem sou eu? O que eu fiz? Eu recolhi tudo aquilo que observei e aprendi. Minhas obras foram alimentadas por uma multidão de indivíduos diversos, de ignorantes e sábios, de sagazes e tolos. Infância, idade madura e velhice – todas vieram me oferecer seus pensamentos, seus poderes, sua maneira de ser. Muitas vezes recolhi aquilo que outros semearam. Minha obra é a de um ser coletivo e leva o nome de Goethe.”

(17 de Fevereiro de 1832)

“Conversações com Goethe” by Johann Peter Eckermann.

Saberes médicos e sentidos da vida – Entrevista ao Jornal A Voz da Serra

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Maurício Siaines

Marcelo Guerra é um médico homeopata que atende no centro de Nova Friburgo, em Lumiar e em Cantagalo. Escreve para o site Personare e organiza, também, “vivências de terapia biográfica em grupo”, em Nova Friburgo e em São Paulo. Nestas últimas, procura levar o grupo a compartilhar fatos das vidas dos componentes do grupo, buscando “um fio de sentido” que conecte esses fatos, procurando levar os participantes à consciência desse sentido para poder ajustar suas vidas a seus sentidos
Marcelo deu entrevista para A VOZ DA SERRA, no sábado, 6 de outubro, em Lumiar, falando de suas experiências e de sua visão de mundo e da medicina.
A VOZ DA SERRA – Fale um pouco de sua trajetória de vida.
Marcelo Guerra – Nasci em São Gonçalo (RJ) e vivi lá até os 22 anos. Estudei medicina na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), na Ilha do Fundão. Antes, estudei em São Gonçalo na Escola [Municipal Presidente] Castelo Branco e depois em Niterói, no [Instituto] Gay Lussac. Uma história curiosa dessa escola em que estudei: quando era pequeno, passava ao local onde depois foi construída essa escola e não tinha obra, não tinha nada, era uma chácara. E eu dizia para minha avó que ia estudar ali. Explicavam-me que não estudaria ali, porque era uma casa, onde moravam pessoas. Depois, demoliram e fizeram essa escola. E fui estudar lá. Quando fui estudar no Fundão, era uma hora e meia para lá e uma hora e meia para cá … Isto quando não tinha engarrafamento, quando não quebrava o ônibus da CTC (Companhia de Transportes Coletivos do Estado do Rio de Janeiro). Depois, vim para o interior [do estado].
AVS – Por que esta sua escolha de mudar-se para o interior?
Marcelo Guerra – Tinha um tio-avô que havia comprado um sítio em Monnerat [distrito de Duas Barras]. Esse tio-avô e minha avó são de Euclidelândia, em Cantagalo. Foram criados em Macuco e mudaram-se para Niterói—ainda adolescentes. E ficaram com aquela visão idílica dessa Região Centro-Norte. E aí, esse tio comprou o sítio e, quando eu tinha 12 anos, me convidava para passar fins de semana e férias. E eu adorei Monnerat … Vinha a Friburgo, que achava linda—acho ainda. Depois, meu tio loteou o sítio para os parentes com prestações a perder de vista. E minha mãe comprou um lote e fez uma casa. E vínhamos nos fins de semana e nas férias. Assim, já tinha contato com as pessoas de Monnerat e gostava muito, meu sonho era morar em Monnerat, trabalhar lá. Quando pude fui para lá. Minha então esposa, que trabalhava no Banco do Brasil, transferiu-se para Cordeiro, montei um consultório em Monnerat, arranjei emprego no hospital de Bom Jardim, depois na Prefeitura de Duas Barras.
AVS – O consultório já era de medicina homeopática?
Marcelo Guerra – Não, era de pediatria. Depois fui trabalhar em Cantagalo, que foi o lugar em que tive mais clientes. Nessa época, fui fazer o curso de homeopatia, no Rio, no Instituto Hahnemanniano Brasileiro (IHB). E continuei a trabalhar em Cantagalo e nos outros hospitais, em Valão do Barro, em São Sebastião do Alto, em Macuco, em Cambuci.
AVS – Sua vida profissional foi, então, sempre no interior?
Marcelo Guerra – Sempre no interior. Hoje, quando converso com colegas, ou com minha filha que estuda medicina, vejo como é diferente a forma como a medicina é exercida no interior e na cidade grande. Agora, voltei a atender em Cantagalo. Quando chego lá e encontro as pessoas, é como se fosse um reencontro de amigos. Isso não existe mais na cidade grande.
AVS – Falando em cultura do interior, há um grande diferença entre o interior de São Paulo e do estado do Rio. Em São Paulo, o interior é muito vivo, rico, e o estado do Rio parece ter sido meio esquecido, mas agora parece estar se revitalizando …
Marcelo Guerra – Não sei … Cantagalo, por exemplo, é muito arrumadinho, muito bonito, mas sinto que os jovens que se formam não têm como trabalhar, precisam sair. Aqui em Friburgo, também. Acho que isso reflete a decadência econômica do estado todo.
AVS – Você era pediatra e de onde veio essa inclinação pela homeopatia?
Marcelo Guerra – Minha relação inicial com a homeopatia era de repúdio. Estudei no Fundão e lá a homeopatia é vista como não sendo medicina. Mas, um dia, tive contato com um professor que estava levando um filho ao médico homeopata. E ele me contou que o filho tinha asma, que nunca melhorava, tinha crises uma atrás da outra, e melhorou com a homeopatia, não teve mais crises. E ele me disse: “Não sei como é, mas funciona”. E então fui assistir a uma palestra [sobre homeopatia] e gostei. Aí me inscrevi no curso—ainda meio desconfiado. Isso foi em 1990. Fui ver qual era e acabei fazendo o curso todo e descobrindo ali o meu graal.
AVS – O santo graal?
Marcelo Guerra – Tinha acabado de ler a história do Parsifal e ele, quando entra no castelo onde está o graal, vê o graal, mas não sabe o que é. Depois ele fica sabendo e tenta de novo chegar lá.
AVS – Mas por que foi o seu graal?
Marcelo Guerra – Porque estudei homeopatia mas, apesar de ter logo sucesso com os clientes, os tratamentos dando certo, ficava sempre assim como se não fosse bem aquilo. Depois fui fazer acupuntura, depois terapia biográfica …
AVS – E a psicanálise?
Marcelo Guerra – A psicanálise aconteceu em Niterói. Ainda durante a faculdade fiz dois anos de [formação em] psicanálise lacaniana, na Escola de Psicanálise de Niterói. Mas era como se eu estivesse sempre procurando uma outra coisa que complementasse, achando que faltava alguma coisa. Mas, no fim das contas, vi que meu graal era a homeopatia. Ali é que estava o que eu precisava, o que eu buscava, a visão de pessoa, a visão de como lidar com a doença, de como lidar com o paciente, estava tudo ali. As outras [tendências de pensamento] falam coisas muito semelhantes, apesar de teoricamente serem muito diferentes.
AVS – Há quem entenda o sucesso da homeopatia em parte como efeito psicossomático, isto é, como algo que tem efeito sobre o corpo a partir de uma situação psíquica, relacionado com algo como uma crença, ou uma crença compartilhada por um grupo social que, assim, interfere na realidade corporal. Como você vê isso?
Marcelo Guerra – Pois é, mas há situações de pacientes que não acreditam na homeopatia. E há também o paciente que diz o seguinte: “Ah! Me dou muito bem com a homeopatia porque acredito”. Eu discordo, porque não é isso, não é questão de acreditar. É a questão, por exemplo, da homeopatia veterinária: o cachorro não acredita em nada, o passarinho não acredita em nada. Uma planta: agora usa-se homeopatia na agricultura. Como seria possível uma planta melhorar de uma doença com a homeopatia? Não é por fé. Não é preciso acreditar, é só tomar o remédio.
Tive um paciente, uma vez, um senhor, que chegou irado—isto foi lá em Cambuci—, ele chegou brigando, falou um monte de palavrões e disse: “Só vim porque minha filha marcou, me obrigou a vir!”. Como ele disse tudo isso antes da consulta, pensei que nem adiantaria levá-la adiante, imaginando que ele não fosse tomar o remédio. Perguntei então a ele: “Antes de perdermos tempo, se eu passar algum remédio o senhor vai tomar?”. Respondeu-me que tomaria porque a filha é que pagaria. Aí, conversei com ele, perguntei tudo, anotei e prescrevi. Funcionou e o cara ficou meu fã. Depois, me mandou um monte de pacientes. Se dependesse de acreditar, com aquele ali nada daria certo, não tinha a menor chance.
Agora, como funciona? Existem algumas teorias mas não me aventuro [a discuti-las]. Honestamente, funcionando, não me interessa saber como funciona. Não que não seja importante saber como funciona, é importante, mas este não é o meu trabalho, mas dos cientistas. Há um estudioso, Jacques Benveniste, Prêmio Nobel de medicina, que descobriu o vírus da aids. Ele é um médico francês que hoje pesquisa como funciona a homeopatia, como funcionam esses remédios tão diluídos. Ele trabalha com isso, eu, não. Trabalho com o paciente.
AVS – Aqui você traz a seguinte questão: a medicina, embora se baseie em conhecimentos científicos, também é uma arte, também depende da intuição e de percepções não necessariamente racionalizadas. O que você pensa disto?
Marcelo Guerra – Exatamente, o [Christian Friedrich Samuel] Hahnemann [1755-1843], quando escreveu o livro que é uma espécie de Bíblia da homeopatia [em 1810], deu-lhe o nome de Organon da Arte de Curar, não da ciência de curar. Se você vai fazer uma pintura você tem que aprender a técnica, não é simplesmente a intuição ou a sensibilidade. Fora as pessoas excepcionais, que têm um dom especial, é preciso ter uma técnica, aprender esta técnica, e colocar sua sensibilidade junto. Medicina é uma arte. Tem-se hoje a ideia de medicina baseada em evidências, que, na realidade tem sido medicina baseada em exames e muitas vezes o médico nem olha a cara do paciente, só sabe do resultado do exame. Se no exame apresentam-se tantos leucócitos ou tantos não sei o quê, não interessa nem se o paciente está bem ou não. Às vezes está bem [apesar de o exame sugerir o contrário]. Às vezes é uma situação que até já acabou. Hoje em dia há uma enxurrada de exames e as pessoas nem conversam.
AVS – Isto faz lembrar o Nelson Rodrigues quando falava em “idiotas da objetividade”: esse saber muito objetivo ajuda, é claro, mas o estado do paciente o médico pode perceber com aquelas práticas antigas, com a observação imediata da pessoa …
MG – … e aí, o exame complementar voltaria a ser realmente complementar. Hoje, na medicina convencional, acho que é o principal.
AVS – Mas isto está mudando, não é?
Marcelo Guerra – Está porque as pessoas estão querendo, estão precisando ser atendidas e não só examinadas, não só fazer exames complementares. As pessoas estão querendo ter um atendimento de verdade.
AVS – São quase que duas profissões diferentes, embora complementares: a medicina praticada com a percepção clínica do médico, com o chamado “olho clínico”, e a medicina, digamos, teórica.
Marcelo Guerra – E o teórico, o pesquisador, traz o recurso da técnica que permite fazer com segurança o trabalho junto com o paciente.
AVS – Outra questão interessante é a das regularidades necessárias à vida humana. Precisamos de uma regularidade de sono e vigília—inclusive, diferente de outros animais—, assim como precisamos comer ou beber periodicamente. Não podemos nos livrar dessas regularidades, não é?
Marcelo Guerra – A esse respeito, pode-se pensar na rotina. A gente reclama tanto da rotina, mas ela é necessária. Ela vem dos hábitos e, estes, trazemos muito de nossa infância, do modo como fomos criados. Por exemplo: você está fazendo uma longa viagem de carro e para às 11h. Aí, come um sanduíche e continua a viagem. Mas você tem o hábito, desde criança, de almoçar ao meio-dia. Você comeu e não está com fome, mas, ao meio-dia, você sente que está faltando alguma coisa. A gente vive reclamando dos hábitos e das rotinas, mas mudá-los é muito difícil. E viver totalmente sem rotina é praticamente impossível. Seria muito cansativo e insuportável e não ter uma rotina acaba virando uma rotina. As regularidades são necessárias, fazem parte da vida da gente. Mas não se pode ficar escravo dos hábitos. Nesse exemplo da viagem, a pessoa não pode deixar para comer só ao meio-dia porque, às vezes, não haverá nada na estrada para se comer a essa hora.
AVS – É difícil distinguir o que é propriamente uma necessidade do corpo do que é criado pela mente, não é?
Marcelo Guerra – Há quem procure separar o que é do corpo e o que é da mente, mas, na realidade, tudo é uma coisa só. Tanto a homeopatia, quanto a medicina chinesa pensam assim.
AVS – E quanto à terapia biográfica?
Marcelo Guerra – Ela vem muito em cima da pessoa tomar [o controle da própria vida]. Existe o livro da doutora Gudrun Burkhard, cujo título é “Tomar a vida nas próprias mãos”. Apesar do nome alemão, ela é brasileira [de São Paulo] e atualmente mora em Florianópolis. Muitas vezes a pessoa atribui seus problemas a outro, ou às circunstâncias, à família. Também acontece da pessoa ter necessidades que não foram satisfeitas, mas ela não vai voltar lá atrás para refazer as coisas. Pode-se buscar entender qual o sentido disso e o que se pode fazer daqui pra frente.
AVS – Qual a diferença entre essa perspectiva e a psicanalítica?
Marcelo Guerra – É que a psicanálise trabalha muito com o conceito do inconsciente. Na terapia biográfica há a influência da antroposofia, criada por Rudolf Steiner [1861-1925], e tem também a influência do Viktor Frankl [1905-1997], que foi psicanalista. Ele era judeu e austríaco, como Freud. Ele não acreditou muito que viesse a acontecer a perseguição aos judeus. E aí, foi preso e passou seis anos no campo de concentração de Auschwitz. Ele criou uma nova linha de terapia, a logoterapia, baseada no sentido. Ele pensa o seguinte: os prisioneiros não eram sempre mandados imediatamente para a câmara de gás, eram postos para trabalhar. E ele se pergunta por que algumas pessoas morriam nos campos de concentração de doenças, de fome, de frio? Por que uns morriam e outros, não? Ele se perguntava o seguinte: “O que faz a gente sobreviver?”. A pessoa perdeu tudo, a família, o nome, profissão, casa, todos os seus bens. Por que alguns sobreviveram mesmo assim? A partir dessa questão ele escreveu um livro clássico, “O homem em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração”. Ele diz que ter um sentido para a própria vida faz com que a pessoa permaneça viva, dá uma força para sobreviver.
AVS – Mas existem circunstâncias, como essa do campo de concentração, em que a vida se altera tanto, que a pessoa precisa encontrar outro sentido…
Marcelo Guerra – Será? O importante é a pessoa olhar sua vida e perceber um sentido, que não tem que ser imutável. Não é uma ideia de um destino pesado sobre a pessoa, pois, se fosse assim, não seria tomar a vida em suas mãos. Quando se tem a percepção de um sentido em sua história de vida, consegue-se diminuir a insatisfação.

Hércules: o Herói dentro de cada um

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A saga de Hércules, que foi imortalizado ao realizar com sucesso 12 árduas tarefas, é uma das passagens mais conhecidas da mitologia da antiga Grécia. O herói enfrentou a ira dos deuses e lutou contra seres horríveis para transcender sua condição de simples mortal. “Hércules não aceitava a imperfeição de sua condição humana e saiu em busca de algo maior, transcendental, assim como muitos de nós fazemos hoje. À primeira vista, o mito parece apenas um relato fantástico, mas por meio dele podemos descobrir formas de superar desafios”, acredita o professor Efraim Rojas Boccalandro, coordenador do curso de mitologia grega da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
“O mito de Hércules ensina que nós também podemos vencer nossos defeitos e nos tornar pessoas melhores, mais éticas e dignas. Esse caminho exige esforço, persistência e coragem, principalmente para encarar monstros internos, como a agressividade, o egoísmo e a falta de respeito ao próximo”, interpreta Viktor Salis, grego radicado em São Paulo, especialista em mitologia grega e autor do livro Os Doze Trabalhos de Hércules para o Caminho do Herói em Busca da Eternidade (edição do autor).

Superar obstáculos
O herói era filho de Zeus, deus supremo, e de uma mortal. Por isso, tornou-se alvo do ódio e das armadilhas da ciumenta Hera, esposa de Zeus, que não poupou esforços para destruir Hércules. Foi por causa dos estratagemas de Hera que o herói se viu obrigado a realizar os 12 trabalhos. E, embora tenha alcançado grandes vitórias, Hércules amargou também várias derrotas. “O que o distingue é sua maneira de encarar os desafios. Em vez de imobilizá-lo, os obstáculos funcionavam como alavanca, levando-o a se superar. É outra lição que podemos aprender”, afirma a paulista Ana Figueiredo, colaboradora da Fundação Joseph Campbell, instituição americana dedicada ao estudo dos mitos.
Apesar de Hércules ser retratado como um homem extremamente musculoso, muitas de suas vitórias foram fruto não de sua força, mas do uso da inteligência e da sabedoria.

Doze tarefas
Os desafios enfrentados por Hércules são metáforas das diversas fases do processo de desenvolvimento interior. Eles estão relacionados aos 12 deuses do Olimpo, o panteão divino dos gregos, e com os 12 signos do zodíaco, que representam forças cósmicas. Para o especialista em mitologia Viktor Salis, os trabalhos podem ser divididos em quatro etapas.
Os três primeiros tratam da violência, dos vícios e da criação de limites. O quarto, o quinto e o sexto estão relacionados com a descoberta dos talentos, com ritos de purificação física e mental e com a transformação do instinto em intuição. O sétimo, o oitavo e o nono trabalhos, por sua vez, falam da sexualidade e da arte de amar. Enquanto o décimo, o décimo primeiro e o décimo segundo são dedicados à criação, ao desapego e à conquista da espiritualidade.
Conheça a seguir as façanhas do herói:

1 O leão de Neméia: o aperfeiçoamento começa dentro de nós
O desafio de Hércules foi vencer um leão de pele invulnerável, que devastava rebanhos e devorava todos os que tentavam matá-lo. Aconselhado por Atena, deusa da sabedoria, a não usar a força, o herói estrangula a fera em sua caverna. “Nesse teste, Hércules ensina que a luta pelo aperfeiçoamento começa dentro de nós. Os leões de hoje são a violência e a agressividade e o desafio é buscar a harmonia, procurando antes de mais nada nossos recursos internos”, explica o mitólogo Viktor Salis.

2 A hidra de Lerna: combate aos vícios
Hércules teve de destruir um monstro de nove cabeças que soltavam fogo: oito renasciam quando cortadas e a nona era imortal. O herói decepou as oito cabeças enquanto um amigo as cauterizava com fogo. A nona foi enterrada, mas vigiada eternamente por Hércules. “As cabeças simbolizam os vícios. Lutamos contra eles, mas, como são imortais, se não estivermos atentos, renascem. Além dos vícios físicos, como drogas e álcool, temos de combater os vícios éticos, como a ganância”, acredita Salis.

3 O javali de Erimanto: vencer o egoísmo
Foram necessários dois anos para Hércules capturar um javali feroz que devastava tudo por onde passava. Esse trabalho está relacionado ao aprendizado da vida em sociedade, segundo Salis. “O javali é um monstro sem fronteiras, que não respeita limites. Cada um de nós tem dentro de si essa fera, que é preciso dominar, aprendendo a reconhecer nosso espaço e o das outras pessoas. É um teste para vencer o egoísmo e a tendência a achar que o mundo gira em torno do próprio umbigo”, interpreta o especialista.

4 A corça cerinita: cultivar a delicadeza
A missão de Hércules era capturar viva uma corça extremamente veloz, com chifres de ouro e cascos de bronze, que pertencia a Ártemis, deusa da caça. Orientado por Atena, o herói dominou o animal sagrado segurando-o pelos chifres. “Os chifres representam a iluminação, e os cascos de bronze, o mundo material. O aprendizado nesse trabalho é substituir os impulsos por qualidades mais nobres, como sabedoria, delicadeza e paciência”, explica Efraim Rojas Boccalandro.

5 Os estábulos de Áugias: purificação do sentimentos
Hércules se ofereceu para limpar em um só dia os currais imundos de um rei que possuía um rebanho numeroso. Desviando dois rios para os estábulos, Hércules cumpriu a promessa, que parecia impossível. Segundo Viktor Salis, nossa sujeira acumulada é composta por raiva, angústia e emoções negativas. “Para fazer uma limpeza interior, devemos observar diariamente e com honestidade a qualidade de nossas reações e emoções”, recomenda.

6 Os pássaros do lago Estínfalo: recuperar a lucidez
Para derrotar aves antropófagas que tinham penas de bronze e as lançavam como flechas, Hércules atordoou-as com o som ensurdecedor de um címbalo. “O teste de Hércules é igual ao de qualquer um de nós: conseguir reconhecer e usar a intuição. Os pássaros simbolizam a falta de lucidez e o som é nossa voz interior. O trabalho em excesso, a pressa e o estresse são pássaros que nos atordoam. O antídoto para essa situação é nos aquietarmos para ouvir o que verdadeiramente queremos fazer”, acredita Viktor Salis.

7 O touro de Creta: governar os instintos
Nesse trabalho, Hércules domou o furioso touro de Creta, ao qual eram oferecidos jovens em sacrifício. Essa tarefa chama a atenção para o controle dos instintos, especialmente da sexualidade. “Hércules precisava manter o animal vivo: tinha que domar e governar seu instinto, mas não matá-lo. Em um mundo com tantos apelos eróticos e sensuais, esse é um desafio para todos, em especial para os jovens”, diz Salis.

8 As éguas de Diomedes: a arte de amar
Hércules teve de enfrentar quatro éguas que se alimentavam de náufragos estrangeiros. Como no trabalho anterior, esse é mais um passo para o herói se aperfeiçoar na arte de amar. “Essa é uma iniciação: aprender a entregar o coração com sinceridade, não se deixar levar pela tentação, movido apenas pela atração física”, afirma Viktor Salis.

9 O cinturão de Hipólita: a coragem de ser autêntico
A missão do herói era conseguir o cinturão da rainha das amazonas, mulheres conhecidas por sua bravura. Mas não poderia obtê-lo pela força: precisaria ganhá-lo conquistando o coração da guerreira. “Esse trabalho fala sobre a importância de construirmos laços afetivos duradouros”, diz Viktor Salis. “Ensina que a arte de conquistar uma pessoa não se faz pela força nem criando ilusões e falsas aparências, mas pelo respeito ao outro e pela coragem de mostrar quem verdadeiramente somos.”

1O Os bois de Gerião: a lição do desapego
Hércules empreendeu uma grande viagem para derrotar o rei Gerião e se apoderar de seus bois. Enfrentou também o gigante Anteu, invencível porque, cada vez que tocava a terra, recobrava as forças. Para derrotá-lo, ergueu-o no ar. “Essa é uma lição de desapego, sobre derrotar a cobiça e o materialismo. Gerião e os bois simbolizam as posses. A verdadeira riqueza, que é eterna, está dentro de nós. São nossos sentimentos e valores”, explica Salis.

11 Os pomos de ouro do jardim das Hespérides: descoberta de talentos
O herói teve que superar vários percalços para obter os frutos de ouro de uma árvore maravilhosa, que representam a força fecunda e criadora dos homens, protegidos por um dragão imortal. “Assim como Hércules teve que ir aos extremos do mundo para descobrir esses frutos, nós também precisamos fazer uma viagem a nosso mundo interior para descobrir nossos talentos e potenciais, que são os pomos de ouro”, diz Salis.

12 A captura de Cérbero: valorizar as qualidades da alma
O desafio era descer ao inferno para vencer Cérbero, cão de três cabeças que guardava o Mundo Inferior. O herói agarrou o animal pelo pescoço e não o soltou até que concordasse em acompanhá-lo. “Esse trabalho fala da imortalidade. Ensina que o corpo pode perder o viço, mas a alma deve irradiar cada vez mais a beleza construída ao longo dos anos. É um ensinamento importante para estes tempos, em que o envelhecimento e as transformações do corpo não são aceitas com naturalidade”, conclui Salis.

Texto: Fanny Zygband, para Bons Fluidos

Por que conhecer e integrar a sua sombra à sua personalidade?

  • chegar a uma auto-aceitação mais genuína, baseada num conhecimento mais completo de quem realmente somos;
  • desativar as emoções negativas que irrompem inesperadamente na nossa vida cotidiana;
  • nos sentirmos mais livres da culpa e da vergonha associadas aos nossos sentimentos e atos negativos;
  • reconhecer as projeções que matizam as opiniões que formamos sobre os outros;
  • curar nossos relacionamentos através de um auto-exame mais honesto e de uma comunicação direta;
  • e usar a nossa imaginação criativa (através de sonhos, desenhos, escrita e rituais) para aceitar o nosso eu reprimido.

Conheça o workshop Teatro de Sombras

Dança da paz

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Germinam desejos da alma
Crescem ações do querer
Amadurecem frutos da vida.

Eu sinto meu destino,
Meu destino me encontra.
Eu sinto minha estrela,
Minha estrela me encontra.
Eu sinto minhas metas,
Minhas metas me encontram.

Minha alma e o mundo são somente um.

A vida, fica mais clara ao meu redor,
A vida, fica mais difícil para mim,
A vida, fica mais rica em mim.

Aspire a paz,
Viva em paz,
Ame a paz.

Rudolf Steiner

Tolerância e Fundamentalismo

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Fundamentalismo é o termo usado para se referir à crença na interpretação literal dos livros sagrados. Fundamentalistas são encontrados entre religiosos diversos e pregam que os dogmas de seus livros sagrados sejam seguidos à risca.

O termo surgiu no começo do século 20 nos EUA, quando protestantes determinaram que a fé cristã exigia acreditar em tudo que está escrito na Bíblia. Mas o fundamentalismo só começou a preocupar o mundo em 1979, quando a Revolução Islâmica transformou o Irã num Estado teocrático e obrigou o país a um retrocesso aos olhos do Ocidente: mulheres foram obrigadas a cobrir o rosto e festas, proibidas. “Para quem aprecia as conquistas da modernidade, não é fácil entender a angústia que elas causam nos fundamentalistas religiosos”, escreveu Karen Armstrong no livro Em Nome de Deus: o Fundamentalismo no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo.

Porém, não são apenas os muçulmanos que têm seus fundamentalistas, também os cristãos, os judeus e, por incrível que possa parecer, os ateus e os céticos. A atitude fundamentalista não permite diálogo, porque suas verdades são únicas e incontestáveis, e quem diverge delas é desqualificado, quando não ridicularizados ou atacados pessoalmente.

Em muitas situações podemos atuar de forma fundamentalista, excluindo a possibilidade de compreender e dialogar com o outro. Pessoas que participam de grupos de defesa dos direitos dos animais veem com imenso desprezo quem não gosta de animais. Vegetarianos podem arrepiar-se ao passar na porta de uma churrascaria. É óbvio que nem todos são fundamentalistas, graças a Deus, ou graças a Richard Dawkins.

Temos em torno de nós muitas pessoas que agem de maneira fundamentalista, quando não somos nós mesmos os fundamentalistas. Na medicina, por exemplo, ainda um grande número dos médicos alopatas desqualifica os médicos homeopatas, sem sequer querer conhecer a especialidade (sim, é uma especialidade médica reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina desde 1981), assim como muitos médico homeopatas ficam indignados se algum paciente usa algum remédio alopático, mesmo que seja numa situação em que tenha sido prescrito num atendimento de urgência. E os pais que acham que os filhos têm que viver a adolescência como se fossem adultos perfeitos? E os adolescentes que acham que os pais são extraterrestres por não conhecer aquela banda que faz sucesso “já” há 3 dias e que vai desaparecer antes de você terminar este texto, também não são fundamentalistas?

Muitas vezes nos relacionamentos a dois o comportamento fundamentalista leva a brigas, desentendimentos e até separações, pois muitas vezes um dos cônjuges quer que o(a) parceiro(a) seja exatamente como suas fantasias acham que deva ser um(a) parceiro(a) ideal.

E qual é o antídoto para o fundamentalismo? A TOLERÂNCIA. Saber que, por mais que queiramos, as pessoas são diferentes, pensam de forma diferente, mesmo quando são da mesma família. Ser diferente não deveria ser um empecilho para uma boa convivência entre as pessoas.

Tolerância e diálogo devem ser nossos lemas na relação com outros seres humanos. Esta é a base da verdadeira paz!

A Alma Feminina nos Homens

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Qualidades associadas ao feminino podem ser notadas no sexo masculino

Por Marcelo Guerra

Tanto os homens quanto as mulheres compartilham características que podem ser consideradas masculinas e femininas. Isso ocorre biologicamente e também animicamente (Animismo é a teoria que considera a alma simultaneamente princípio de vida orgânica e psíquica)

 

Como explicar de forma simples?

 

. Biologicamente, os hormônios sexuais, estrogênio e testosterona, estão presentes em ambos os sexos, mas em proporções diferentes. O estrogênio é mais preponderante na mulher e a testosterona, no homem.

 

Animicamente, há dois arquétipos relacionados ao gênero, chamados Anima e Animus. O Animus é o arquétipo masculino presente na mulher e o Anima, o arquétipo feminino presente no homem. É sobre este último que este texto trata.

 

A Anima é um arquétipo que carrega as qualidades de contração, introspecção, acolhimento, o nutrir o outro, maternidade, o cuidar do outro. São qualidades tradicionalmente associadas ao feminino, e que o homem carrega em sua vida psíquica e pode, ou não, desenvolver ao longo da sua biografia.

 

Cultivando e desenvolvendo

 

Quando somos crianças e adolescentes, recebemos de fora nossa educação, seja pela família, pela escola, pelos grupos que frequentamos, pelas ideologias a que aderimos. Quando nos tornamos adultos, a nossa educação fica em nossas mãos, torna-se auto-educação, e todo nosso desenvolvimento a partir de então está sob nossa responsabilidade.

 

O cultivo e desenvolvimento da Anima pelo homem depende, então, de sua própria vontade. Nos primeiros anos da vida adulta, o homem se vê diante de circunstâncias que frequentemente o impelem à competição, e isso mantém a sua Anima meio adormecida, latente. Essa competição aparece na vida profissional, onde é mais evidente, assim como nos relacionamentos, em que a busca por uma parceira pode tomar ares de uma verdadeira caçada.

 

Já na faixa dos trinta anos, o homem (assim como a mulher) já busca temperar mais a razão (característica arquetipicamente masculina) com a emoção (característica arquetipicamente feminina) e assim há um surto de desenvolvimento de sua Anima, como se fosse a puberdade da Anima. As decisões já levam em conta não só fatores materiais, lógicos, mas também sentimentais. No trabalho, por exemplo, ter um bom salário já não representa o único, nem o mais importante, critério para um homem escolher um emprego. Estar num ambiente de trabalho agradável, junto com pessoas amigáveis, conta muito mais. No relacionamento, o fato de uma mulher ser bonita e gostosa diminui um pouco de importância aos olhos do homem, que passa a valorizar mais os atributos de companheirismo, carinho, atenção.

 

Sentimentos florescendo

 

O desenvolvimento da Anima prossegue após esse ‘estirão’ e na faixa dos cinquenta anos a Anima amadurece e floresce no homem (sempre lembrando que a opção ‘ou não’ também é válida, afinal de contas somos livres para escolher o rumo de nossas vidas). Assim, nos relacionamentos amorosos e familiares, o homem passa a ser mais carinhoso, afetuoso, emotivo, demonstra mais os seus sentimentos. No trabalho, tem um cuidado maior com os colegas, principalmente com os mais jovens, de quem muitas vezes pode se tornar uma espécie de tutor e protetor.

 

Lembro que meu pai, que era um pai disciplinador, autoritário, nessa época me beijou pela primeira vez, o que me causou surpresa e alegria. O pai autoritário tornou-se um avô que cozinhava para nos receber, que puxava os netos pela casa em cima de um ‘tapete voador’, que aprendeu a dizer ‘eu amo você’, que admitiu que sentia muita saudade do pai que morrera há tantos anos, que chorava ao ser homenageado por estagiários em seu trabalho (ele era enfermeiro).

 

A Anima é um tesouro na vida anímica do homem, que traz conforto e maciez à própria existência e à daqueles com quem se relaciona. Por isso, homens, vamos cuidar bem de nosso lado feminino e fazer um mundo mais carinhoso.

 

Dedico este texto à memória de Warner, meu pai. 

Artigo originalmente publicado na Revista Online Personare.