Arquivo do Autor: marceloguerra

De onde surge a poesia?

Manoel de Barros

No aeroporto o menino perguntou:

– E se o avião tropicar num passarinho?

O pai ficou torto e não respondeu.

O menino perguntou de novo:

– E se o avião tropicar num passarinho triste?

A mãe teve ternuras e pensou:

Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia?

Será que os despropósitos não são mais carregados de poesia do que o bom 
senso?

Ao sair do sufoco o pai refletiu:

Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças.

E ficou sendo.

O fascínio das celebridades

Marcelo Guerra

No próximo dia 29 de abril será realizado o aguardado casamento do príncipe William com Kate Middleton, o que a imprensa anuncia como o “Casamento do Século”, repetindo o que ocorreu com o dos pais do príncipe, o Príncipe Charles e a Princesa Diana.

Recentemente encerrou-se mais uma edição do Big Brother Brasil, novamente com uma enorme audiência. Revistas e sites especializados na vida de celebridades estão entre os mais lidos em todos os tempos. Alguns artistas e esportistas lançam mão desses veículos de comunicação para se promover, sendo presenças assíduas neles. Diante de qualquer acontecimento polêmico, a imprensa busca a opinião não só de especialistas, mas também de celebridades.

De onde vem o fascínio que as celebridades exercem sobre o nosso imaginário? Se você busca uma resposta superficial, pode contentar-se com a natural curiosidade que temos pela vida dos outros, amplificada pela cobertura jornalística. Queremos saber como as celebridades vivem, o que gostam de fazer, o que comem, o que vestem, como são as suas casas.

Há algo mais nesse interesse. Cada celebridade simboliza um ideal. A rainha da Inglaterra é um símbolo de todas as qualidades que podemos atribuir aos ingleses. Podemos imaginar que, todas as tardes, ela senta-se pontualmente às 5h para tomar um chá com sua família real, e nos surpreenderíamos se ela saísse nesse horário para pegar um lanche num drive-thru de alguma lanchonete. Ela carrega toda a tradição da realeza e dos costumes ingleses. Cada cidadão inglês pode , assim, identificar-se com a rainha.

Em relação a artistas ou esportistas, cada um representa um atributo que podemos admirar ou invejar. Podemos admirar a alegria transbordante de Ivete Sangallo, a determinação de Ayrton Senna e o desejo de chocar de Lady Gaga. Cada um terá sua legião de admiradores. Eu posso admirar aquele traço que ainda pretendo desenvolver na minha vida, ou aquilo que nunca ousaria fazer, mas que a celebridade fez em meu lugar. Dificilmente veremos alguém vestido com bifes de carne numa festa, mas muitos admiraram a Lady Gaga por ter tido a ousadia de vestir-se assim, pretensamente sem importar-se com a opinião alheia.

Na adolescência é comum a busca por ídolos que representem um ideal de vida. O adolescente busca, através dos ídolos, um modelo daquilo que pretende ser quando adulto. Quando eu era adolescente, meu grande ídolo era o Zico, craque do Flamengo, e ainda hoje o admiro muito. Minha admiração não se restringia à habilidade com que jogava futebol, mas também à seriedade, ao compromisso com o time e ao exemplo de superação de situações adversas.

No caso específico de um casamento de um príncipe com uma mulher de classe média, o simbolismo torna-se ainda mais forte, já que muitas mulheres e adolescentes alimentam a fantasia inconsciente de encontrar um príncipe encantado. Kate encontrou um príncipe de verdade! Seu casamento reafirma a todas as mulheres que é possível , mesmo que o príncipe não tenha título de nobreza.

É pela força da identificação com nossos ideais que as celebridades podem cair em desgraça com uma grande facilidade. Quando alguma notícia desfavorável chega ao público, não é só pelo fato noticiado que as pessoas se sentem decepcionadas, mas pela quebra do símbolo. No fim das contas, aquele ídolo também erra, também tem incoerências, também é humano.

A Magia das Cores

Herman Hesse

Para lá e para cá anda o sopro de Deus,

Céu abaixo e acima, muitas vindas e idas,

Aos milhares as canções que entoa a luz,

Deus torna-se mundo nas cores garridas.

 

O branco pelo preto, o frio pelo quente,

Sentem sempre mútua atração,

O arco-íris aclara-se eternamente,

Depura-se de uma caótica agitação.

 

Assim na nossa alma se transforma

Em mil tormentos e imensas alegrias

A luz de Deus, que a tudo dá forma,

E que como o Sol exaltamos todos os dias.

 

Onde Goethe foi beber sabedoria

Aprendimentos

Manoel de Barros

O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura é o caminho que o homem percorre para se conhecer. Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim falou que só sabia que não sabia de nada. Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas das árvores servem para nos ensinar a cair sem alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente aprender o idioma que as rãs falam com as águas e ia conversar com as rãs. E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros do mundo pelo coração de seus cantos.

Estudara nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver, no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar. Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens. Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles – esse pessoal. Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova. Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam que o fascínio poético vem das raízes da fala. Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

Do livro: “Memórias Inventadas – As infâncias de Manoel de Barros”.

Você tem a mente aberta?

Marcelo Guerra

É comum ouvir as pessoas dizerem com orgulho que têm a mente aberta. Mas o que isso significa realmente? Ao entramos em contato com ideias ou situações novas geralmente somamos nossas próprias convicções, que funcionam como reflexo, checando tudo que nos é apresentado. Podemos fazer uma analogia com um grande quebra-cabeças, comparando as pecinhas (novas ideias e situações) com a foto na tampa da caixa do jogo (nossas ideias preconcebidas). E nos perguntarmos: Será que podemos ir além do que a tampa do quebra-cabeças nos mostra? O mundo se resume à tampa do quebra-cabeças? E se criarmos um novo quebra-cabeças, sem tampa, para nos orientar?
A imagem que o mundo exterior nos oferece muitas vezes pode confirmar nossas crenças, mas o que acontece quando estão em oposição ao que pensamos ou não têm qualquer relação com o que acreditamos? Mesmo sendo capazes de ouvir o outro, nossa tendência é rejeitar de imediato todos os movimentos de não-conformidade com nossa tampa de quebra-cabeças.?
Para evitar este julgamento apressado, toda vez que estivermos diante de uma experiência nova, é importante nos mantermos presentes na situação, com os sentidos bem alertas, recebendo o que o mundo externo está apresentando. Evitando interpretações e inferências, tendo uma atitude receptiva – ou contemplativa – seremos capazes de perceber sentidos diferentes dos esperados na nossa tampa de quebra-cabeças.
Um exemplo banal sobre como isso acontece pode ser percebido quando vamos ao cinema. Se antes lemos uma crítica ou entrevista com o diretor explicando os motivos pelos quais realizou a obra, criamos uma determinada expectativa. Mas se resolvemos assistir meio às cegas, sem uma “preparação”, ficamos abertos para as revelações do filme sobre nossos sentidos. A segunda opção proporciona uma experiência mais completa.
Na verdade, após experimentar o que o mundo externo oferece, estando presente sem julgamentos, podemos promover o encontro das impressões dos sentidos com as ideias, com resultados enriquecedores.
Ter a mente aberta, portanto, não significa abdicar de convicções, mas estar presente nas situações novas que aparecem e só depois refletir sobre como elas agem sobre nós. Esta atitude permite um aprendizado muito além de colecionar informações, ajuda a construir um conhecimento a partir do mundo real, e é ainda mais importante na forma como nos relacionamos com as pessoas.
Numa conversa ou discussão, se tudo que ouvimos passa pelo filtro das convicções, não há espaço para o outro se revelar. E se além das convicções, este filtro vier preenchido com nossas qualidades e defeitos projetados no outro, não é possível percebê-lo como realmente é. Mente aberta não significa ausência de convicções formadas, mas saber reconhecer o outro como ser único, com suas próprias certezas. Só assim existe abertura para receber o que o outro traz e, talvez, formar um novo quebra-cabeças, com cores e formas não programadas.

Artigo publicado originalmente na Revista L’Aura.

Você gosta de Natal em família?

Marcelo Guerra

Reflita se você escolhe onde passar essa data por prazer ou obrigação

Fim de ano, época de festas, confraternizações, alegria e, para muitos, aborrecimentos. Os dias que antecedem o Natal trazem a necessidade de tomar decisões aparentemente triviais, mas que podem trazer problemas para o próximo ano inteiro. Decidir que presente vai dar para quem talvez seja o mais fácil de resolver. Decidir onde vai passar a noite de Natal e o almoço de Natal é a decisão mais arriscada, principalmente para adultos que já construíram uma nova família, além de sua família original.

Tradicionalmente o Natal é considerado como a festa para se passar em família. É aí que entra a questão: qual família? A que você construiu pelo casamento ou morando com alguém? A família em que você nasceu e foi criado? A família da pessoa com quem você construiu uma outra família? Quem não casou não está isento desse conflito, porque muitas vezes os amigos formam um grupo tão ou mais coeso que uma família, e nessa hora esse grupo também entra no rol de possibilidades.

Há alguns momentos dessas 48 horas (dias 24 e 25) que são mais importantes que os outros? Ou seja, há um horário nobre do Natal? A maioria das pessoas tende a considerar a noite de 24, até a meia-noite, como a apoteose da festa. Por conta disso, este é o momento mais crucial para decidir.

Um exemplo comum é o de um casal com filhos cujos pais são vivos. Vão passar o Natal em sua própria casa, com seus filhos? Vão para a casa dos pais do marido? Para a casa dos pais da esposa? Vão juntar todo mundo? Vão passar a noite de 24 com os pais de um e o almoço de 25 com os dos outro? E os cunhados e cunhadas, vão poder ajeitar seu horário de forma que coincida com os seus?

Decisão difícil… O difícil não é decidir onde você vai passar a noite de 24, mas onde vai deixar de passar. Cobranças, reclamações, mágoas… Prepare-se, elas virão de algum lugar.

Por que muitos de nós precisam sentir-se prestigiados pela escolha dos filhos em passar a noite de Natal em nossa casa? O que representa um filho não vir para a noite de Natal? Ele me ama menos? A família em que ele foi criado é menos importante para ele do que a família que ele construiu? Por que me sinto menos por ele não vir na noite de Natal? Por outro lado, por que sinto mais obrigação do que prazer em passar o Natal com os meus pais ou os meus sogros? Por que sinto tanto medo de magoar?

Mágoas guardadas

Como em todo relacionamento, a dificuldade de comunicação é um pedregulho no sapato. Deixamos de falar o que pensamos e, principalmente, o que sentimos, com medo de magoar, com medo de ser mal interpretados. Muitas vezes, pequenos problemas que não são falados, vão crescendo dentro de nós até o dia em que ou explodimos ou evitamos o contato. Numa data como o Natal, na qual as pessoas podem sentir-se obrigadas a estar juntas, é natural que esses sentimentos e mágoas que carregamos no bolso do coração entrem em ebulição novamente, causando mal estar. Sem dúvida, este não é o melhor momento para trazer à tona assuntos tão delicados que vêm sendo escondidos ou cultivados com pitadas de ressentimento, raiva, incompreensão, intolerância. Porém é possível dizer o que você sente em relação a uma situação que se apresente no momento, tomando o cuidado para não contaminar com as mágoas escondidas. Expressar o que você sente é o primeiro passo para estabelecer ou melhorar uma relação familiar. Não confunda expressar seus sentimentos com o muro das lamentações! Dizer o que você sente não lhe exime das suas responsabilidades em tudo o que lhe acontece, quer dizer, a culpa do que lhe acontece de errado não está nos outros.

Construímos nosso destino com aquilo de que dispomos, com o dinheiro que ganhamos, com o DNA que herdamos, com a educação que recebemos, com os amigos que fazemos. Seguimos (ou não) um mapa inconsciente que desenhamos com o nosso eu interior, e que mostra para onde apontam nossos propósitos e intenções mais profundos. Se ignoramos o mapinha e vamos para onde o mar da rotina e do conformismo nos leva, isto é nossa responsabilidade e não devemos acusar os outros por isto.

Voltando ao Natal, para sua decisão, busque aquilo que lhe é possível neste momento, mas procure perceber aquilo de positivo que traz união à sua família. E expresse o que você sente, seja por palavras, por um abraço, um tapinha nas costas, um sorriso. O espírito de Natal, afinal, é constituído pela união de nossos corações.

Feliz e expressivo Natal! Paz em seu coração!

Artigo publicado originalmente na Revista Personare.


Casa e Família

Você gosta de Natal em família?

Reflita se você escolhe onde passar essa data por prazer ou obrigação

A força da primeira impressão

Marcelo Guerra

Um interessante estudo realizado pelo Departamento de Psicologia da Universidade de Waterloo, no Canadá, analisou a influência do ambiente de fundo sobre a percepção da expressão de uma pessoa. Os participantes da experiência eram solicitados a classificar a expressão de diferentes pessoas em fotos. Algumas pessoas nas fotos exibiam expressão de alegria, outras de raiva, e outras faziam cara de paisagem, ou seja, uma expressão neutra. O detalhe é que o fundo das fotos variava entre lugares alegres e outros meio soturnos.

Pois bem, os observadores classificaram como alegres predominantemente as fotos em que o fundo era alegre, independente da expressão das pessoas. Então, uma pessoa com a expressão de raiva, mas com o fundo alegre, era geralmente classificada como alegre. Diante de uma imagem em que a pessoa aparecia sorrindo, mas o fundo era escuro ou pouco atraente, os observadores associaram à tristeza.

JULGAMENTO ALTERADO

Este estudo mostrou a importância do contexto para o julgamento de nossas experiências. Aplicando isso a um relacionamento amoroso, o primeiro encontro pode influenciar a impressão deixada no outro de acordo com o local escolhido. Numa praia, num lugar junto à natureza, como um belo jardim, a impressão causada tende a ser mais positiva. O oposto disso seria marcar um encontro num túnel ou num viaduto. É claro que a primeira impressão muitas vezes é ilusória e a convivência muda esse julgamento, aproximando-o mais da realidade.

O comércio e a publicidade já perceberam essa associação entre o ambiente e o efeito que ele causa na percepção das pessoas. Assim, entramos numa butique pela beleza da arrumação da sua vitrine, pelo perfume que impregna o ar da loja, pela beleza das atendentes. Uma loja mal cuidada tende a afastar seus potenciais clientes, que precisam ser atraídos por algo a mais. Nas propagandas na TV sempre há esta associação. Belíssimos lugares por onde alguém caminha para divulgar uma marca de uísque, praias paradisíacas onde a cerveja fica mais gostosa e gelada, paisagens panorâmicas onde se fuma o melhor cigarro.

ALÉM DA PRIMEIRA IMPRESSÃO

Esta pesquisa demonstra a importância de não descuidarmos da aparência do ambiente, se quisermos causar uma boa impressão, mas o mais importante é que a primeira impressão é influenciada demais por fatos alheios à essência do que procuramos. Num relacionamento amoroso, por exemplo, buscamos alguém que tenha determinadas qualidades, e não alguém que eu encontre num jardim de Monet. Se quero comprar uma roupa, o ideal é que ela seja bonita, e não a loja, afinal de contas eu vou vestir a roupa e andar com ela por aí, e a loja vai ficar parada no endereço dela.

A lição desta pesquisa é olhar além da primeira impressão, estar presente e atento ao que você busca e não perder o foco pela beleza ou feiúra do ambiente em que você está.

Publicado anteriormente na Revista Personare

Curso Biográfico em São Paulo

A Pesquisa Auto-Biográfica permite olhar para a própria história e expressá-la de diferentes maneiras (falando, escrevendo, pintando, dançando), ver o trajeto que percorremos na vida, como se olhássemos para a própria biografia do alto de uma montanha, o que traz uma visão panorâmica do sentido. E agora, para onde vou? Como corrijo o percurso para reencontrar o sentido da minha história? Quando sigo o fluxo do sentido, encontro paz interior, mesmo que tenha mais trabalho.

A síntese da programação é a seguinte:

informação sobre as fases da vida, as leis biográficas;

contato com o próprio corpo: danças circulares;

contato com o inconsciente: atividades artísticas (aquarela e colagem, a princípio), conto de fadas;

reflexão individual: a escrita da vida;

reflexão em grupo: contando a própria história;

eu hoje: identificando a minha pergunta;

pensando o amanhã: projetando metas para a minha vida.

Coordenação:

Rosângela Cunha

Psicóloga, Gestalt-terapeuta e Terapeuta Biográfica

Marcelo Guerra

Médico Homeopata e Terapeuta Biográfico

Formação Biográfica – Minas Gerais – Escola Livre de Formação Biográfica

Membro do International Trainers Forum em conexão com a General Anthroposophical Section of the School of Spiritual Science do Goetheanum – Dornach/Suiça.)

Onde e quando?

Em São Paulo, no Centro Paulus, de 14 a 17 de outubro de 2010.

4 parcelas de R$247,00 ou R$988,00 à vista, em quarto individual;

4 parcelas de R$292,00 ou R$1.168,00 à vista, em suíte individual.

A inscrição é efetivada com o depósito da 1ª parcela.

Escreva para rosangela@terapiabiografica.com.br ou marceloguerra@terapiabiografica.com.br para mais informações. Ou ligue para falar com um de nós: (11)6463-6880

VAGAS LIMITADAS

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