Canto dos Espíritos sobre as Águas

A alma do homem
É como a água:
Do céu vem,
Ao céu sobe,
E de novo tem
Que descer à terra,
Em mudança eterna.

Corre do alto
Rochedo a pino
O veio puro,
Então em belo
Pó de ondas de névoa
Desce à rocha lisa,
E acolhido de manso
Vai, tudo velando,
Em baixo murmúrio,
Lá para as profundas.

Erguem-se penhascos
De encontro à queda,
— Vai, ‘spumando em raiva,
Degrau em degrau
Para o abismo.

No leito baixo
Desliza ao longo do vale relvado,
E no lago manso
Pascem seu rosto
Os astros todos.

Vento é da vaga
O belo amante;
Vento mistura do fundo ao cimo
Ondas ‘spumantes.

Alma do Homem,
És bem como a água!
Destino do homem,
És bem como o vento!

Johann Wolfgang von Goethe, in “Poemas”
Tradução de Paulo Quintela

Páscoa

POEMA SOBRE A PÁSCOA

Novalis (Friedrich von Hardenberg) 1772-1801

Eu digo que ele vive, a toda gente,

e que ressuscitou,

e que junto de nós e para sempre

pairando ele ficou.

Eu digo, e todos vão também dizer,

aos companheiros seus,

que em breve em toda parte vai nascer

novo reino dos céus.

Perante um novo modo de sentir,

o mundo reaparece;

e a vida nova em nós a ressurgir

da mão dele é que desce.

Vejo o terror da morte mergulhar

no fundo mar escuro,

e toda gente agora a contemplar

com calma seu futuro.

A vereda sombria que ele abriu

para o céu é que vai,

e quem os seus conselhos já ouviu

chega à casa do Pai.

Agora, ao ver morrer alguém querido,

sofremos sem temor.

Saber que o reencontro é concedido

suaviza essa dor.

Com muito mais fervor vamos agir

nos feitos mais singelos,

pois essa sementeira vai florir