Nosso compromisso com o Natal

 

Marcelo Guerra

A Antroposofia, bebendo da mitologia cristã medieval, fala da criação do universo como um ato de doação das hierarquias superiores, principalmente serafins, querubins e tronos, mas não somente eles. Esses seres espirituais altamente evoluídos participaram da criação de tudo que existe no universo (minerais, plantas, animais e seres humanos) doando sua própria substância, o que de certa forma os enfraqueceu. O nascimento de Jesus inaugura um novo tempo, o tempo em que nos tornamos responsáveis pelo destino de nossas vidas, do universo e também precisamos começar a retribuir o trabalho desses seres espirituais, que o tempo todo cuidam de nós.
E esta nossa missão está representada na manjedoura onde nasceu o menino Jesus, que logo recebeu a visita dos pastores da região e dos reis magos. Os reis magos chegaram até Jesus por meio de muito estudo e cálculos astrológicos, enquanto os pastores que cuidavam das olhavas, foram avisados do nascimento do menino pelos próprios anjos. Duas formas de chegar ao mesmo destino, pelo conhecimento ou pelo amor e compaixão, agora unidos em torno do menino que ousou nascer para vivificar a Terra. Esta é a nossa missão como seres humanos: conciliar o frio conhecimento com o amor e a compaixão, criando a sabedoria, para tornar o mundo mais fraterno e facilitar nossa existência, mas também para nutrir o corpo etérico da Terra para que os seres das hierarquias superiores que nos deram tudo que ainda nem conhecemos possam se nutrir e se revitalizar. Este é o nosso compromisso com o mundo material e espiritual nestes tempos.
Feliz e sábio Natal,
Marcelo Guerra

Você se culpa por transgredir?

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Aqueles que se permitem transgressões da alma com certeza são vistos e recebidos pelos outros como estrangeiros. Os que mudam de emprego radicalmente, os que refazem relações amorosas, os que abandonam vícios, os que perdem medos, os que se libertam e os que rompem experimentam a solidão que só pode ser quebrada por outro que conheça essas experiências. A natureza da experiência pode ser totalmente distinta, mas eles se tornarão parceiros enquanto ‘forasteiros’.

Nilton Bonder, in A alma imoral.

Mistério Natalino

Rudolf Steiner

Devemos reencontrar o caminho para o mistério natalino.
Pela natureza nos devemos tornar tão devotos como o eram
Os pastores em seus corações.
Em nossa visão interior devemos nos tornar tão sábios quanto
os magos pela observação de planetas e estrelas no espaço e
no tempo.
Temos de desenvolver interiormente o que os magos desenvolveram exteriormente.
Em nossa troca com o mundo externo devemos desenvolver o que os ingênuos pastores no campo desenvolveram em seus corações-assim encontraremos o caminho, o correto caminho para um profundo sentimento em relação ao Cristo, para uma compreensão amorosa do Cristo.
Desse modo encontraremos o caminho para o mistério natalino.
Com pensamentos e sentimentos corretos podermos colocar ao lado da árvore do paraíso original o presépio que não nos fala apenas de como o ser humano ingressou no mundo através da reencarnação, mas como somente através do renascimento ele pode conscientizar-se plenamente de sua condição de ser homem.

O Ninho Vazio: Como vivenciar?

Em fevereiro passado, o público brasileiro de cinema foi brindado com mais um delicado filme argentino, chamado “O Ninho Vazio”. O longa mostra um casal vivendo essa crise de mesmo nome, uma situação muito comum na vida e pouco valorizada. Esta síndrome (síndrome é o título usado pela medicina e psicologia para algo que não pode ser bem classificado como uma doença, mas que apresenta certa regularidade de sintomas) geralmente começa depois dos 42 anos, numa fase em que os filhos deixam a casa dos pais para construir suas próprias vidas. Toda a rotina dos pais, que até então girava muito em torno dos filhos, precisa ser modificada. A mulher e o homem percebem que há mais espaço, mais tempo para si e para o casal, e começam a aparecer os problemas.

Se antes um fim de semana com os filhos viajando seria comemorado com um “enfim sós” e champanhe, agora esse “enfim sós” tem gosto de solidão a dois. Pode haver tristeza profunda, um sentimento de inutilidade que atinge ambos, mas geralmente mais a mulher, que costuma estar nesta fase vivendo as mudanças, nem sempre agradáveis, que a menopausa traz. E a solidão se torna um sentimento muito forte!

Para a mulher, o Ninho Vazio costuma ser sentido com mais dor, porque culturalmente muitas mulheres colocam como meta central da sua vida a maternidade. Para muitas, deixar de cuidar dos filhos para apenas partilhar sentimentos com eles é fazer pouco, é não ser mãe. Isto vale mesmo para mulheres que trabalham fora, que têm sucesso em suas carreiras, porém sentem-se como se um pedaço fosse tirado delas. Hoje este Ninho Vazio pode ser sentido também diante da separação de um casal, em que os filhos ficam sob a guarda do pai ou da mãe e aquele que fica só com as visitas sente muito essa ausência em sua rotina. Mais aguda é essa dor quando os filhos ficam com o pai e a mãe passa por todos os sentimentos de inadequação e abandono – neste caso somados ao de fracasso, que não se justifica na maioria das vezes.

O relacionamento do casal no filme, assim como na vida real, sofre abalos sísmicos nessa fase. O vazio deixado pela saída dos filhos traz à tona comportamentos e imagens que um tem do outro que permaneciam meio obscurecidos no dia-a-dia tumultuado que havia antes. Neste momento a Terapia Biográfica pode ajudar muito, tanto a pessoa que sofre por estar vivendo estas mudanças quanto o casal que sofre por não se reconhecer mais como uma família e não perceber a mudança que se faz necessária. Através de conversas e de trabalhos artísticos, comumente usados na Terapia Biográfica, é possível que cada um entenda melhor seus objetivos de vida e busque realizá-los, trazendo o sentimento de realização, de satisfação interior, de felicidade, enfim. É importante sempre ter em mente que ser pai ou mãe é uma missão importante na vida de uma pessoa, mas não é tudo!

A vida passa por várias fases e muitas vezes não percebemos que as circunstâncias são diferentes, e continuamos com comportamentos e expectativas que não cabem mais. Precisamos estar atentos a essas mudanças. Uma dica simples para você perceber as mudanças é fazer um pequeno diário. Quando estiver vivenciando o Ninho Vazio, escreva à noite uma espécie de retrospectiva do dia, relatando o que foi aprendido naquele dia e o que muda na sua vida através deste aprendizado. É como acompanhar o crescimento de um filho marcando na parede sua altura. Se você só olha para a criança, não se dá conta da mudança constante em seu tamanho, mas marcando regularmente cria atenção. Assim também esse ´caderno de aprendizagem´ permite ver as mudanças em sua vida de uma forma mais próxima. E as mudanças virão mesmo, mas que estejamos prontos para elas e saibamos reconhecê-las e transformar nossas vidas de acordo com nossas aspirações mais íntimas.

Nunca se esqueça que ser mãe ou ser pai faz parte de sua vida, mas não pode abarcar toda a sua vida. O que lhe interessa? Você tem algum hobby ou gostaria de ter um e ainda não teve tempo? Você tem algum sonho que vem adiando, esperando o momento de ter mais folga? Você pensa em dar um novo rumo à sua carreira? Qual é o rumo que você pretende dar ao seu casamento?

A angústia de ver os filhos saindo do ninho pode muito bem ser compensada observando o voo deles por novas paisagens, novos relacionamentos, novos desafios profissionais. Reconhecer que os filhos são adultos e que precisam voar com as próprias asas, isto é que vai fazer diferença no seu sentimento: perceber que você não perdeu os filhos e estar aberta para ajudá-los se precisarem.

Este é o momento de direcionar seus talentos e sua energia para algo novo, afinal o Ninho Vazio é o prenúncio de um novo nascimento.

Filme O Ninho Vazio (El Nido Vacío, 2008), de Daniel Burman – 98 minutos –http://www.elnidovacio.com