Tecendo o fio do destino 2011

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.


E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto

Cada um de nós nasce com um destino, não como um livro previamente escrito em que cada ato nosso está previsto, mas como uma missão a nós confiada. Isto faz com que a vida tenha um sentido e, muitas vezes, sofremos com angústia ou depressão por não percebê-lo claramente. Os fatos de nossas vidas estão aí para que encontremos o Fio do Destino que, junto com o nosso livre arbítrio, tece os acontecimentos tanto no nosso mundo interior quanto na nossa vida nas comunidades em que vivemos.

Este curso tem o objetivo de buscar o fio do destino de cada um, desembaraçá-lo, tecê-lo de forma diferente, mais confortável, mais de acordo com o sentido que queremos dar para nossas vidas. Para isso trabalharemos com fatos de nossas próprias vidas. Este trabalho será feito com palavras e arte. Ninguém precisa ser artista ou ter conhecimentos prévios de Antroposofia para participar, é claro.

Muitas das questões que nos colocamos hoje são percebidas de modo diferente quando as situamos no contexto mais amplo da vida toda. A troca de experiências de vida num grupo é enriquecedora e suaviza os sentimentos ligados a essas experiências.

Coordenado por:

  • Nina Veiga

Educadora Waldorf e Psicopedagoga artística, mestre em linguagem e cultura.

  • Marcelo Guerra

Médico Homeopata e Terapeuta Biográfico.

Onde e quando?

Em São Paulo, no Centro Paulus, de 29 de abril a 1º de maio de 2011.

Quanto?

  • R$840,00, em quarto individual;
  • R$920,00, em suíte individual.

(O preço inclui os honorários e deslocamento dos coordenadores, os materiais usados durante o workshop, a divulgação, a hospedagem e a alimentação. A inscrição é efetivada com o depósito de R$200,00 e o restante deverá ser pago durante o curso com 4 cheques pré-datados. Não haverá devolução da taxa de inscrição em caso de desistência. Nos reservamos o direito de cancelar o curso se não houver o número mínimo de inscritos.)

Escreva para marceloguerra@terapiabiografica.com.br para mais informações. Ou ligue para (11)6463-6880.

Faça sua inscrição online, clicando aqui.

Bullying – essa “brincadeira” tem consequências

Bullying: “brincadeira” com consequências

 

No dia 7 de abril de 2011, o mundo foi vítima de mais uma matança em escolas, desta vez no Brasil. Um ex-aluno entrou numa escola municipal em Realengo, zona Oeste do Rio, e promoveu um massacre. Este ex-aluno, segundo as pessoas que o conheceram, tinha um comportamento que leva a supor que sofria de alguma doença mental. O que é certo é que sofria de bullying, como afirmaram 2 ex-colegas de turma. Assim como os rapazes que promoveram o massacre em uma escola em Columbine, nos Estados Unidos, que depois gerou o documentário “Tiros em Columbine”.

O bullying sempre existiu nas escolas, mas nem sempre foi encarado como um problema. Há algumas décadas atrás era considerado “coisa normal de crianças”. Aquelas que divergissem um pouco da média eram as vítimas preferenciais. Hoje o bullying tem sido denunciado, mas está bem longe de ser controlado.

Na mesma semana, dois outros casos envolvendo bullying povoaram os jornais. Uma estudante universitária de enfermagem que denunciou as agressões que sofria à direção da faculdade, em Ribeirão Preto, foi agredida por uma colega com o capacete de motociclista. E um aluno de 15 anos de uma escola do sertão de Alagoas passou por uma sessão de três minutos de tapas na cara por ser homossexual. O bullying não respeita fronteiras nem nível social.

No ambiente escolar é muito importante para a criança e o adolescente fazer parte de um grupo, ser aceito e apoiado por ele. Quem sofre bullying sente-se excluído, e geralmente reage com um sentimento de minusvalia que pode influenciar sua vida em seus aspectos emocional, social e profissional, não só no momento em que sofre a agressão, mas por muitos anos no futuro. Cria-se um sentimento de inadequação, de não pertencimento, que mina sua autoconfiança e o faz sentir-se inferior. Algumas vezes esse sentimento de inferioridade pode gerar uma reação violenta e, se somar-se a um transtorno grave e não tratado de personalidade, um massacre como esse.

No Ensino Médio, estudei em uma escola particular de Niterói, e morava em São Gonçalo. Eu e muitos colegas que vínhamos da cidade vizinha sofríamos todo tipo de gozações, até mesmo por parte de professores. Algumas inócuas, outras bem agressivas. Um de nossos colegas sofria mais perseguições pois, além de gonçalense, era negro (o que era uma exceção numa escola de classe média de Niterói à época) e obeso. Não eram só piadinhas, eram tapinhas na nuca, tomar seus cadernos e jogar no chão, colocar o pé na frente para derrubá-lo. Os inspetores, pomposamente chamados de ‘auxiliares de comunicação’, limitavam-se ao ‘não faça isso de novo’. Ele tornou-se mais tímido do que no início do ano. Um dia ele surrou o colega mais insistente nas provocações, e foi suspenso das aulas pela atitude violenta.

O bullying sofrido pelo meu colega tinha as três características que o definem: era alvo de agressões e comentários negativos, as agressões eram repetidas e havia um suposto desequilíbrio de poder entre os colegas. Nem sempre o bullying é tão evidente, ele pode acontecer por meio de intrigas, espalhando comentários entre colegas (e a internet, através das redes sociais, pode ser um veículo para isso), ou evitando falar com a pessoa que é vítima de bullying, até mesmo porque quem se aproxima da vítima também é hostilizado. Os temas mais usados pelos agressores são a forma física (‘baleia’, ‘esqueleto’, ‘sem-bunda’, ‘baixinho’, ‘pintor-de-rodapé’, ‘caolho’), a etnia (‘crioulo’, ‘branco-azedo’, ‘japa’) e a religião (‘crente’, ‘papa-hóstia’, ‘macumbeiro’).

Os agressores buscam, através das provocações, dominar um grupo, numa estrutura de poder semelhante ao de animais na selva. É preciso que o bullying não seja tolerado como ‘coisa normal’, que se estimule o agressor a buscar sua própria humanidade, e a arte é o melhor instrumento para isso. E a vítima precisa ser amparada e protegida pela escola e por psicoterapia, não exposta ainda mais aos agressores, para que possa ter a real percepção de si, e não aquela imagem perniciosa que o bullying insiste em fazê-la acreditar.

 

Responsabilidade, controle e interesse

Marcelo Guerra

Todo dia você acorda com várias responsabilidades. Algumas com as quais você lida sempre e vai continuar lidando, como o seu trabalho; outras que você vai resolver neste dia e estará livre delas; outras que uma vez por mês você precisa lembrar, como as contas. Ser responsável significa, ao pé da letra, responder a uma demanda. A necessidade desta resposta pode gerar ansiedade muito frequentemente, e então a tendência é buscar o controle de todos os fatores envolvidos naquilo que precisamos responder, para evitar o fracasso.

Quando você está no controle, há uma sensação de segurança que permite que você desempenhe aquilo que esperam de você com uma certa facilidade, diria até que ‘com os pés nas costas’. A questão é: até que ponto o controle que você pensa ter sobre algo é real?

Um exemplo muito comum é encontrado na relação entre pais e filhos. Muitos pais acreditam que, por serem responsáveis pelo seu filho, deveriam controlar tudo o que ele/ela faz, ligando a cada 5 minutos para o seu celular, dando incertas para conferir se está onde disse que estaria. Monta-se uma estrutura de vigilância ao redor do filho. E então o pai ou a mãe sente-se seguro. Esqueceram de sua própria juventude. Há 3 décadas atrás, quando eu era adolescente, era comum os pais ditarem regras muito estritas sobre onde ir, com quem ir, a que horas chegar, e por aí vai. Uma enorme lista de regras a serem quebradas, no mínimo envergadas.

A medicina é uma profissão em que isso se revela de uma maneira muito clara. O médico é responsável pelo tratamento junto com o seu paciente, mas ele não tem controle sobre a evolução da doença. Todo tratamento envolve inúmeros fatores, como o estilo de vida do paciente, seu (do paciente) compromisso em tomar e fazer o que for prescrito, a virulência do microrganismo (no caso de uma doença infecciosa), sem contar com o clima, com os problemas que batem à sua porta e causam um desequilíbrio total. Muitos fatores que o médico não pode controlar. No entanto, ele precisa ser responsável. Como ser responsável por uma situação da qual eu não tenho o controle?

A resposta está no ‘interesse’, uma palavra que tem origem no grego antigo e significa estar entre. O médico responsável consegue colocar-se entre a doença e o doente, conhecendo os mecanismos, formas de tratar e possíveis complicações da doença, e sendo generoso com o seu paciente, ouvindo suas queixas, sabendo que ali está um ser humano e não um caso de uma doença. Apesar de não ter o controle sobre a vida do paciente nem sobre a doença que o trouxe à consulta, o médico pode e deve ser responsável pelo seu tratamento.

Trazendo o interesse para outras situações em que é preciso ter responsabilidade, como no exemplo de pais e filhos, fica muito claro que a necessidade de controle será tanto maior quanto menor for o real interesse pela vida do filho. Interessar-se pelas suas atividades, pelas suas amizades, pelas suas dificuldades, pelos seus gostos, pelo que lhe faz sofrer. Interesse não implica em ser invasivo, mas em apoiar quando sentir que é preciso e até mesmo repreender em algumas situações. A pessoa que tem interesse pelo outro cria um vínculo em que o controle torna-se obsoleto, e assim é possível ter responsabilidade tirando o peso da ansiedade das costas.

 

Terapia Biográfica e carreira

Marcelo Guerra

Nas últimas décadas, o conceito de carreira foi radicalmente modificado. Nos anos 70 ou 80 a carreira significava uma vida de trabalho dentro de uma mesma empresa e geralmente a pessoa tinha o próprio nome associado ao local onde trabalhava, como “Sr. Fulano da Empresa X” ou “Sr. Sicrano da Companhia Y”. A partir dos anos 90, a carreira passou a ser construída a partir da presença de diferentes empregos em empresas variadas ou ainda por meio de projetos independentes. Sendo assim, o emprego não é mais a meta, mas sim a realização como profissional.

A Terapia Biográfica busca o sentido nos diferentes fatos da vida de uma pessoa. No caso da carreira, ela pode revelar o sentido de sua vocação, que significa um chamado, ou seja, ultrapassa o conceito de profissão, podendo até se expressar por uma atividade não profissional. A vocação é o meio pelo qual podemos expressar os nossos propósitos mais essenciais, transformando-os em ações. A profissão pode ser uma forma que a vocação encontra para se expressar, mas ela está mais ligada a uma missão de vida. Assim, uma pessoa pode trabalhar num banco como necessidade profissional e realizar sua vocação fotografando nos finais de semana. Ou realizar a vocação num trabalho voluntário. Contudo, o caminho mais adotado para concretizar a vocação ainda é a profissão.

Como a Terapia Biográfica estuda as fases da vida em períodos de sete, os setênios, esta série de artigos pretende mostrar as influências de cada setênio para a formação da vocação. Especificamente, até os 28 anos, porque é quando termina a fase de formação. Para começar, avaliaremos o primeiro período da vida de uma pessoa.

DE 0 A 7 ANOS

Quando você nasceu, precisava de cuidados e os recebeu de seus pais e das pessoas próximas, que formavam à sua volta uma espécie de ninho de carinho e proteção. Até os 7 anos, a criança é bem dependente dos adultos e o que formará sua confiança é a qualidade dos cuidados recebidos nesta fase. Aliás, essa característica deve ser formada nesse período, já que depois disso só é conseguida através de muita disciplina e força de vontade.

A autoconfiança também é muito influenciada pelos primeiros passos. Quando uma criança aprende a andar, ela cai e levanta várias vezes. Muitas vezes ela se ergue com a ajuda de um adulto, mas o mais importante é que ela saiba que pode levantar quando cair. Se os pais não permitem que ela experimente esse levantar e cair, por medo de que se machuque, ela não desenvolverá a coragem para arriscar na vida. Por outro lado, se ela ganha um andador e sai correndo pela casa, sem fazer o menor esforço, pode desenvolver uma falsa autoconfiança, pois não se baseia nas suas próprias forças. Observe como foi que você aprendeu a andar. Isso diz muito sobre como você age na sua vida.

A principal atividade de uma criança é brincar. As brincadeiras nessa fase não seguem muitas regras, não são jogos. Algumas crianças gostam mais de liderar, outras seguem mais do que lideram. Algumas gostam de brincar com os brinquedos que ganham, seguindo as suas funções originais, enquanto outras optam por inventar brinquedos muito mais originais com as caixas dos presentes. As regras das brincadeiras nessa fase são inventadas pelas próprias crianças e costumam começar com “finge que…” ou “faz de conta que…”

Brincando, a criança desenvolve a criatividade e a capacidade de liderança que aplicará no seu trabalho quando for adulta. E é esta criatividade que permite criar novos negócios, novos produtos, novos serviços ou resolver impasses que nascem quase todo dia diante de nós quando estamos trabalhando. A capacidade de liderar, dividir essa liderança e convencer os seus pares daquilo que você acredita fazem com que o trabalho flua por um novo caminho. Isso pode ser comparado com a época que você decidia as regras do pique com os colegas, até onde valia se esconder, até que número quem estava no pique tinha que contar, quem era café com leite e quem brincava à vera.

Estas são as principais influências da infância à vocação que desabrochará na vida adulta. Aguarde os próximos artigos e aprenda mais sobre os setênios.

PARA CONTINUAR A REFLETIR SOBRE O TEMA

“Workshop Antroposófico: Vocação e Sentido”, de 25 a 27/03, em Ouro Preto (MG)

Artigo originalmente publicado na Revista Personare.